Sintam-se à vontade. A casa é vossa...

3 de janeiro de 2010

(para Bruna)

Era um grilinho de cabelos cacheados que cricrilava no meio dia.
Desenhou sua mãe, parecia um sapo com nariz de palhaço.
E assim fez-se a poesia.

18 de dezembro de 2009

Sapinho na chuva

Escorrem as palavras dentro d'alma, silenciosamente. Esses olhos mudos e essa tola língua dos loucos apenas contemplam a chuva na janela. Lá fora, as luzinhas coloridas do natal brilham em sua solidão, unidas por um fio verde. Um sapo me observa e faz poesia com o plimplinar incessante das gotas d'água. São coisas das quais não sei, músicas que desconheço... Que podem as palavras senão em silêncio escorrer, sapinho? Ele responde um coacho firme que faz vibrar a pocinha. Eu rio, enquanto escorre a imagem de palavras e silêncio...

16 de dezembro de 2009

Não. Não é a vida que angustia. É a escrita. É a ars poética que grita em silêncio às cousas do mundo. E as cousas respondem apenas com silêncio. O silêncio da palavra que transpassa o ser e lhe dá vida. Mas a vida é simples e escrever é coisa do Diabo, deste mesmo Diabo que me sorri e que me tenta. Não. Não é a escrita que angustia. É o poeta. Mas o poeta é Deus! Deus em seu silêncio profundo e bestial. Deus no caos de si. É o rebento que sufoca no últero da criação, representação inútil de seu hermetismo. Intangível, tudo angustia em silêncio.

14 de dezembro de 2009

Disgracera

Finquei-lhe a faca no bucho como se quisesse mata o cabrito p’a ceia. O cabra se contorcia mais que criança birrenta pedino doce. Pelo cabrito podia inté sê que tivesse dó. Ma por ele não. Não. Botei-lhe o ponteiro da pexera na altura da penicite e torci até chega na boca do estomgo. Cortei bem no tempo de muito devagar cada curva das entranhas daquele disinfeliz. Um riso meu dado em cada gemido do peste. O sangue que me vinha na cara lavava meu zoi cum justiça. E o meu riso sentia o gosto amargo daquele sangue com merda. Homem de merda é o que é. Froxo! Por isso que tinha de acaba daquele jeito. Na merda. As mão dele no vão da ação tentava recolhe as tripas que se lhe pendiam da pança. O bucho tudo no chão com sangue e merda e os cachorro doido pra lambe. Peste! Os urro que ele dava saia no meio do sangue que minava da boca aberta. E eu virado no Cão. Ria ria ria... Dispois olhei pro menino do balcão: desce uma pinga e um pé de frango, moleque!

2 de dezembro de 2009

Eu: patavinas

(a João Cabral de Melo Neto)

Et cetera...
et cetera...
et cetera...
Como são vivas as palvras da poesia na boca dos velhos poetas mortos!

30 de novembro de 2009

Trecho de "O escritor"

(Ana Hatherly)

as palavras descem por sobre a face do poeta como cortinas de água que se fecham sobre a face horrorizada do poeta está dentro do lado de dentro ou então fora o símbolo desce sobre a face descoberta a face descoberta sento-me na minha pequena caixa de vidro que é a página que me isola e me expõe as palavras ao poeta surgem sobem descem sobretudo nascem exasperante a lentidão da mão escrevo tudo isto ilegibilidade porque escrevo o acto de escrever a experiência de o exprimir sem exprimir isto é tentando isso descem mil escritas por onde descem surgem da ilegibilidade dum lado leis doutro leis tudo são regras a transgredir