26 de janeiro de 2009

A pluma pousa delicadamente sobre a face das águas escuras que descem o rio. A vida é a pluma que se precipitará na queda d'água mais adiante. Nada a fazer senão continuar com a vara em riste à espera do peixe. Vejo a pluma e me pergunto se o pássaro que a desprendera tem consciência do destino que ela leva. Indago-me se a criatura que vaga nos céus sabe que emanou uma parte de si. Certamente, a ave que me poderia responder não deve ter consciência das minhas dúvidas, da minha existência, da pluma delicada que segue o rio. Não deve ter consciência de si.
O peixe morde a isca e o trago até a margem. O bom pescado deve render boa merenda à noite. Talvez ele não saiba da caçarola que o espera. Talvez ele não sinta a mesma agonia que sinto ao ver o pular frenético por um gole de vida.
A dança decadente que preludia a morte continua, enquanto me viro para pegar o cesto de vime que servirá de esquife ao peixe. Sinto nas costas uma lufada áspera acompanhada de um barulho ignoto para mim. Quando vou pegar o peixe, vejo-o tremendo no bico de um pássaro que alça vôo além rio. Outra pluma toca a água. Busco aquela que descia, mas já se precipitara na queda. Sumiu como o peixe aos olhos meus.
Talvez esta vire um peixe.

Um comentário:

Anônimo disse...

"Vejo a pluma e me pergunto se o pássaro que a desprendera tem consciência do destino que ela leva."
Gostei dessa frase que me leva à reflexão:
-E nós, temos temos consciência do destino que nos leva?