29 de agosto de 2011

Flores do porvir



Durmo com isto: a sensação do estar vivo. Do evaporar-me numa efusão com outra erva aromática. Corpos condensados no leito da terça-feira. É doce o mel da flor. E o perfume é luz líquida que embriaga o palato. Brincamos ao meio dia. Há um balde de Lego sobre o chão da cozinha colorindo o almoço. Há peças íntimas espalhadas pelo corredor. Depois de amanhã será quinta. O inverno se despede como quem dá o último suspiro. Quando secar o suor dos corpos, será líquida a manhã. O verde grama dos teus olhos vai sorrir em sol maior. Espreitemos a primavera, ela habita o cerne dos nossos peitos. Nus e de mãos dadas, plantamos as flores do porvir.




17 de agosto de 2011

o agosto II




O agosto é noite o mês inteiro. Se Deus existe, sai de férias nessa época. O Diabo desce à Terra e solta os seus Capetinhas. Não tenho medo da assombração. Tenho medo é dessa secura que invade a vida, enquanto no dentro de mim um rio deflui e espera florescer. Assim que passar o agosto, meu amor, a relva brota verde no chão. Já te disse que o agosto passa, não disse? É o próprio vento que o leva e traz as flores do setembro. Não fecha os olhos pra não sonhar. Sonho de agosto é pesadelo. Mesmo comendo salada, a Pisadeira vem. Mas não se preocupe. É só uma velha assombração, como tu mesmo és para mim, sempre no mês de agosto.



3 de agosto de 2011



(aos meus alunos)

vem. dá-me a mão. quero te mostrar o caminho desconhecido que és tu mesmo. um caminho cujo chão está forrado com palavras. cada uma é uma parte de ti, que desconheces. mas não sou eu quem vai te dizer que significam elas. não. nem o livro dos verbos. és tu quem vai erigir o sentido. és tu quem deve indagar às máscaras e ouvir, apaixonadamente, o eco que elas emanam. mas se não o fizeres, se não quiseres caminhar pelo rumo que te mostrei, por estares no conforto da desídia que assola a geração ou por deixares emanar de ti a essência da barbárie, que habita o homem e o condena ao silêncio elementar das entrelinhas do grunhido, espera o que há de vir... e se, por acaso, te deparares frente ao espelho e no mirar dos olhos do reflexo encontrares a questão: quem és? não te assusta ao perceber que não tens resposta. eu bem quis te mostrar que o caminho valia a pena.