28 de julho de 2011




O riso que a noite espreita. O anjo, o flerte e o demônio. Na boca da lua, doses de outro oceano. O mar bêbado de corpos. O nu do corpo caminha sobre a precisa geografia das mãos. O norte e o sul no oblíquo do ser. É o quase que o medo não deixa. Amanhã, navegamos...




24 de julho de 2011




O inverno insistiu em ficar. Debruçou o silêncio sobre as flores. Na gare, a Vida espera o trem. Há tempos... No prato de sopa, o reflexo dos olhos: oceanos sobre as letrinhas de macarrão. Há verão no coração, mas os dedos só expressam outono. O que a Vida não sabe é que a primavera dormita nas fagulhas do desejo. Nem uma mosca viria para o jantar. Até chegar João, no trem terceiro, atrasado, vertendo pela chaminé fumo cansado do corre trilho. Mas João não ficou para o jantar e os olhos da Vida continuaram no oceano das letras.
Do outro lado, o verão lagarteava na alma. Mas não havia trem que nos levasse à areia. Há tempo... O inverno insistiu em ficar. Debruçou silêncio sobre as flores. Bem sabes. E a primavera está no inverno. Os dedos só expressam outono. O que a Vida sabe, é que João, mesmo atrasado, afogou no oceano as letrinhas da sopa. Havia tempo, murmuramos. Mas a gare estava vazia. Nem uma mosca para embarcar. O trem não haverá de passar. Na gare, só a bagagem e a bruma, enquanto letrinhas esfriam no prato de sopa frente aos olhos do oceano.



22 de julho de 2011

Outra estória de Uirapuru

À beira do lago, sete sapos seresteiros se reúnem pra noite da cantoria. A lua brinca no espelho escuro, enquanto estrelas aguardam sorridentes. No dentro da água, espreitam peixes. A Iara mãe confabula sobre a régia vitória duma tartaruga, que ficou no lugar de destaque na contação dos causos de Boitatá.
Os sapinhos todos com as violas em punho. Papos a postos, coaxos beijam o silêncio. Vez em quando, a fazer graça, pulam no compasso da seresta. As estrelas em frenesi. O coaxado ecoa do cerne da mata, atravessa o dentro d'água, pula no coração dos peixes, enternece a Iara mãe e desliza, de galho em galho, ao todo sempre do infinito verde.
Ali no acolá da floresta, o Uirapuru perde o sono. Voa à beira do lago e espreita a cantoria. Sorri ao ver as estrelas embevecidas. Ouve e se deleita. Os sete sapos seresteiros continuam. Cantam a terra, o rio, a mata. Cantam o amor dos animais, a vida dos espíritos. O Uirapuru murmura algo para si. No seu peito o silêncio é o canto que ecoa. Observa para apreender a beleza do momento. Pensa que quer ser um sapo seresteiro. Talvez assim pudesse cantar mais, ultrapassar o limite da necessidade e do querer cantar apenas no tempo propício de sua existência.
Mas o Uirapuruzinho é condenado ao silêncio. O seu canto é raro e precioso. Por isso, quando na raridade de cantar, o mundo silencia para ouvi-lo. Mas, no tempo de quieta voz, quem o escuta? Ninguém sabe a dor que o silêncio faz. Pensa, então, que devesse romper a quietude de si e cantar além da seresta dos sapos; mas fica parado. No seu peito, a vontade de soltar o canto. Mas o canto é silêncio e solto está. Percebe? Não pode... Afrontar espíritos ancestrais poria a cabo sua condenação por outra ainda pior. Deixa ser o silêncio dor e beleza enquanto os sapos cantam. No fundo de sua alma, o Uirapuru sabe que mesmo quieto alguém o ouve.


20 de julho de 2011

concepção suicida





Quando a tensão penetra o pulso
sangro arte.
Pouco a pouco,
a vida empoça aos pés de um corpo frágil.
Da agonia nasce o Ser de mim.
Que sou?
Poesia, arte ou linguagem?


Suicídio.





5 de julho de 2011





Não. Não vivo tudo o que escrevo. Mas tudo o que escrevo vive em mim. Profunda e intensamente em mim.




4 de julho de 2011




O silêncio dorme no leito do meu canto, guardado no dossel da Ventura. Traça, em sonho, o verbo, à pena. No espelho, é real e canta com gesto tácito. Um passarinho tecendo ode à Aurora.
Menino prodigioso, sonha enquanto grito.




2 de julho de 2011

agnus Dei




no peito
cravada adaga
luz em sangue convertida
na fenda da remissão
nos confluímos
em perversão e poesia