23 de julho de 2010

de mim para o Outro

Eu sou isto: este container de Pandora sob o sol. Dentro, maçãs azuis. Na minha face desliza o carinho do escremento das gaivotas. Aos meus pés, o mijo dos marinheiros. Vejo nas docas as prostitutas, os travestis, os amantes e os mendigos. Vejo o sexo ao rés do chão. Nada me dói. Nem essa ferrugem que me carcome as cantoneiras, nem esses mariscos que apodrecem sob mim. Contemplo o porto, o mar. Os navios que partem com suas pesadas âncoras. Sinto um verme que se agita numa maçã. Ele tem olhos verdes onde repousa a tristeza de uma esperança devassa. Escorre por minhas frestas o chorume do fruto podre. O verme desliza. Espia pela fresta e ganha o cais. Está vivo.

13 de julho de 2010

Fato XIII

a ausência dos fatos é o fato em si






(com isso encerra-se a série Fatos.)

12 de julho de 2010

Fato XII

há universos entre as pétalas d'uma rosa
não é um o terceiro olho que é o que ela tem no meio da testa é buraco negro que transforma o todo universo real em matéria do não-sei-quê dentro do universo outro que é a cabecinha dela livre um passarinho de asa quebrada sobre o espelho que reflete o céu ela imagina o voar e vê os próprios olhos no azul da superfície que o buraco engole e vira o ela do avesso a coisa outra do ser onde ela é e é mudo o ser seu no estado natural do livre do bonito bonito bonito passarinho no oco da cabecinha dela

11 de julho de 2010

era caos
profana canção em boca de mendigo bêbado
loucura oculta
em olhos do ninguém
era dente saliva e sexo
a visão da puta cega:
era o ele no dentro dela.

8 de julho de 2010

Fato XI

o vácuo da criação sussurra o silêncio nos olhos do poeta

6 de julho de 2010

Fato X

no abraço da saudade o cheirinho de lembrança

“Lixo Humano” impressiona em espaço alternativo

Efraïn Bacuri

No último sábado, a Gigio Produções Artísticas apresentou, no antigo e desativado Mercado Municipal, o espetáculo “Lixo Humano”, de Márcio Bergamini. Com elenco renovado, a peça atraiu cerca de 60 pessoas ao espaço alternativo. Uma iniciativa positiva, a fim de criar – e aproveitar – espaços para diversificar a cultura local.

O drama, construído em processo colaborativo entre atores, direção e dramaturgo, durante o Projeto Ademar Guerra do ano passado, retrata a vida de pessoas que sobrevivem da coleta de material reciclável e que passam por situações degradantes, muitas vezes, confundindo-se com o próprio lixo. O texto mostra, ainda, o fascínio pela religião, a exploração e violência sexual, e os sonhos que essas pessoas têm.

A ideia de apresentar o espetáculo no Mercado destivado foi do diretor Giovanni Mantovani, o Gigio, que viu o ambiente como propício para contextualização da temática. Segundo o diretor, o espaço tem caracterização de rua e de lugares abandonados onde pessoas se alojam, por não terem onde morar.

Diferente da apresentação de estreia, ocorrida no Teatro Municipal, a de sábado permitiu maior proximidade do púbico, que pôde observar as ações como em um teatro de arena. A ambientação e a plástica da montagem compensou a atuação de alguns novos integrantes do elenco, como a de Rosângela Martins, que caracterizou, muito bem e de forma realista, a prostituta Maria Elvira, embora não tenha atingido o ápice das intenções e força da personagem. Destaque para a atuação de Edmar da Costa, como Misael, que, mais uma vez, se mostrou brilhante ao encanar o personagem que articula e causa a maioria dos conflitos da trama.

Apesar de não contar com grande número de público, o evento surtiu o efeito esperado no que esteve presente: choque e reflexão sobre a situação da sociedade. Além disso, ficou o questionamento sobre o espaço utilizado. Pôde-se observar o abandono de parte da estrutura do Mercadão que, se não usado mais para o comércio, poderia ser um interessante espaço para o fomento da cultura local. Talvez, a administração pública, em conjunto com a comunidade artística da cidade, pudesse debater ideias para a revitalização e aproveitamento do local. Espera-se que a iniciativa positiva da Gigio Produções não se estanque aí e continue explorando locais diversificados que a cidade oferece, no intuito de levar cultura e lazer a todos os cantos.


Edmar da Costa e Rosângela Martins, em cena de "Lixo Humano"


Cena de "Lixo Humano", de Márcio Bergamini, apresentada sábado, 03/07, no antigo Mercado Municipal.


Leiam o publicado no Diário de Votuporanga: http://migre.me/UGpd

4 de julho de 2010

2 de julho de 2010

Fato VIII

o coração é um deuzinho bobão autor cegueta da prosa do mundo