17 de novembro de 2010

Lição de prosa

(ao Lucas Gandin)

- Como a gente escreve uma história?
- A gente escreve a história como ela deve ser escrita.

E foi o menino com a pena em punho a rabiscar rosas em muros de ninguém.

16 de novembro de 2010

sob as asas do tempo
apodrece
o ovo da vontade

embrião sem forças
signo sem faces
máscara absorta

no teatro dos homens
o ausente assombra o que foi um dia
desejo
ou
poesia

no dorso do corpo
definha no silêncio
o manto das virtudes

os deuses querem o sangue
sacrifício vão na pilastra do templo

- o que é sacrifício já não é oferenda nem adoração -

e cada ato é inútil
como inútil são os cantos
aos ouvidos do surdo
aos olhos do cego
ao coração do incrédulo

na estrada que não existe
erro
sobre o caco dos ecos
gemido de aflitos
e o coração de minha voz
é desejo sem forma
espelho sem luz
sombra do que um dia fui
e ao que chamaram Poesia.

7 de novembro de 2010

3 de novembro de 2010

Sei não eu

(para Kelly)

Sei bem o que é o amor não. Sei que as perna da gente bambeia e a vista escurece de luz. A gente é besta. Se fazemos de besta. Ou vai ver que é mesmo e alumia a consciência num modo inconsciente da bestialidade. É um tecido sem fim de cor furta-cor, onde não tem cor nenhuma e todas elas estão ali. E o relógio corre sem dar corda e para, mesmo acordado, quando a gente desonha sozinho no escuro, ou quando a gente não dorme pensando na criatura do outro. É besta, não é? Mas eu sei não eu. É sempre esse mote, essa forma ocidental de antíteses e paradoxos e dores. É sempre metáfora de outras coisa. Bonito isso: metáfora. Isso de amor é fora de meta. Fora de moda. É uma constante inconcordância. Em tudinho. Mas isso eu realmente sei bem o que é que é não.