27 de outubro de 2010

Melina

Deitada, o que escorria sobre o travesseiro não eram lágrimas. O árduo do dia sobre a pele. Os olhos em coma. Descia ao vale dos devaneios pensando chagas. O bálsamo que a envolvia, longe da culpa e do remorso, era a consciência de ser consciente. E todo o tormento que lhe causava dores, pobre Melina, vinha do saber. Os olhos de menina doce escondiam a certeza da dúvida. O caos do seu presente era um porvir. Um croqui amassado. Rascunho de Deus. Mas hoje ela foi decidida. Ontem. Decidira ontem. Foi e esbravejou contra as colunas do templo. Não queria perdão, mas encarar a face do Deus. E as colunas se fizeram imóveis enquanto o mantra ecoava. Sempre assim. Parou de orar. A vida é aqui. Conclui. O sorriso na escuridão do coma e a liberdade... A liberdade, Melina, é só um sonho, um eco nas escrituras. E o que escorria, por fim, no travesseiro da menina, eram as palavras do Deus: Melinae, quia peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa...
nas curvas do desejo
linhas tênues da rosa proibida
pecados líquidos entre os lábios da flor
e no cerne do ser
a vida toda na rendição do efemêro

15 de outubro de 2010

Αφροδίτη

A praia na beira do mar era de seixos. As águas forjaram a deusa no espaço mínimo do ser das pedras. Fez-se soberana e bela, senhora de peripécias do destino. E por bela ser, foi seguida pelas Cárites, mais tarde, quando levada por Zéfiro à terra firme.
Quando as águas da maré a vieram recolher, para iluminar o mar à noite e beber do brilho das estrelas, encontraram apenas Eufrosina a dormir em segredo num dossel de pecados. Afrodite, a construir castelos de seixos com uma mão e destruiur com a outra, vidrava os olhos nas rocas de um penhasco distante.
As águas da maré não perdoam. Invocaram Eurus e Siroco para levarem as Cárites ao Hades. Debulharam os seixos e deixaram areia escura sob os pés da deusa. Ela então notou que não podia contruir seus castelos com uma mão e destruí-los com a outra. Precisava, agora das duas. Entretanto, sempre que tinha um pronto, vinham as águas da maré para levá-lo. Solitária, Afrodite contemplaria o mar e não mais veria sequer os rastros na areia dos seixos que um dia estiveram em suas mãos.

8 de outubro de 2010

de profundis

Envolta em vestido de sombra, a menina dos olhos sonha que valsa. E turva é a imagem do sonho, não pelos traços escuros, mas pelo cristal em líquido que precipita das janelas do ser.

7 de outubro de 2010

As Ilhas

No oceano, duas ilhas unidas pela água. Mas ilhas, em sua plenitude solitária. Miravam-se de longe, acenavam palmeiras e sonhavam ter mãos para escrever um bilhete: o mais elemental dos textos, o que as uniria por toda a existência, oi. Vez ou outra, piratas atracavam em uma delas, escondiam tesouros que seriam esquecidos ou levados pelas águas da maré ou tão bem guardados que elas faziam questão de mantê-los assim, apenas para satisfazer seus caprichos de ilha. Tinham fé de que o magma que se agita no interior da terra permitisse o deslizar de seus corpos, fundindo-se em um só pedaço de chão.
Mas um dia - assim mesmo, com a previsibilidade da narrativa que evoca o avesso das vontades - nesse dia de conjunção adversa, o sol, que estava de lua por ter passado a noite em claro ouvindo o lamento das baleias, furioso secou o oceano. Fez da água o nada. Nem nuvem que viraria granizo. Nem granizo que viraria água.
Estavam unidas pelo solo. Sentiram a plenitude de continente e, mesmo parecendo distante, viram as mãos de terra, que não sabiam existir, nem estarem unidas e encobertas pelo oceano. E no regozijo de ver o horizonte em solo, não viram que entre elas havia sal e esqueletos de baleia. Não notaram que os piratas não apareceriam, que não haveria mais tesouros, exceto os que mantinham oculto pelo capricho, que logo se esgoratia o alimento das palmeiras. Que logo seriam deserto de si.
E assim foi. O sal corroeu-lhes os olhos. Em pouco tempo, os corpos viraram areia e se espalharam em planíce árida com o vento. Já não eram ilhas e não tinham mar. Já ninguém lhes punha os pés e as palmeiras mortas há muito não acenavam. Agora, as ilhas são deserto.