30 de junho de 2010
29 de junho de 2010
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27 de junho de 2010
25 de junho de 2010
24 de junho de 2010
22 de junho de 2010
A mala
(para o Giovanni)
Abriu a mala e deparou-se com o passado. Os olhos louros da peruca, o boné torto, a adaga de gume cego, o mofo esquecido no figurino e a identidade distraída do Outro. Não é triste. As lembranças brincam no carrossel da memória e riem iguais crianças com a boca cheia de algodão doce. Lá no distante além, alguém dorme enquanto um infante chora. Imaginamos a vida ali. Vidas outras que se refazem na ordem natural das coisas, da fantasia, daquilo que foi e deixou de ser para ser novamente o que não é mais. O ombro amigo ri das peças do destino enquanto o fumo leve do cachimbo invade o som da poesia. Tudo rito no solo de Dionísio. Tudo na mala, o mundo e aquilo que permite ser.
21 de junho de 2010
17 de junho de 2010
15 de junho de 2010
Escafandro roto
ele foi a minha hipótese o meu discurso semelhante em prosa leve o homem cujas entranhas estavam ligadas às minhas pela força do desejo ele teceu corpos disformes embriões feridos no leito de Dionísio ele em silêncio andou por terras do estrangeiro ele enquanto eu descia à gruta para matar a fome de um Deus ele morreu afogado ele é o mar que invadiu os pulmões de si quando o escafandro se partiu partiu-se ele e agora repousa no leito alvo de um livro azul folhas partidas alagadas por ele que é um oceano doce de lágrimas muito muito além dele muito além do discurso meu que ninguém homem nenhum nem ele nem ninguém jamais viu e ele ele era ele o meu escafandro roto que me matou quando nasci
14 de junho de 2010
(im)previsão do Tempo
Ar úmido em terras floridas. Sentimento da chuva regando flores. A natureza (im)previsível do tempo. Tempestades se formam sob olhos do sol que flores não vêem. Tufões arrancando raízes, despetalando altroemérias, anêmonas, lírios e as rosas. Tempo exato da beleza das flores. Ar seco, gelado, tocando folhas, caule, raíz. Invade coroloas, congela seiva. Inverno que queima frutos persistentes em galhos. Mãos secas fazendo Tempo. O sol insiste todas as manhãs. Penetra as águas límpidas da ribeira. Mas as terras não se movem. Flores secam. Previsto tempo imprevisível. Tempestade de raios causando incêndio. Fumo coberto de sol. Varre o vento folhas queimadas. Entope a nascente e arrasta pedras para o longe. O ermo. Campo seco ardendo em brasa. Nenhum calango. Nenhuma flor. Nem bom samaritano para pensar feridas da terra. O tempo imprevisível fazendo Tempo Previsto. A (im)previsão: Tempo.
9 de junho de 2010
Por não estarem mais distraídos
(de Clarice Lispector)
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, estava com a boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter essa sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa dos carros e pessoas, às vezes, eles se tocavam e, ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. E então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.
Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela, que estava ali, no entanto. No entanto, ele que estava ali… Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas. E quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.
Tudo só por que tinham prestado atenção, só por que não estavam bastante distraídos.
Só por que, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo por que quiseram dar um nome; por que quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos…
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, estava com a boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter essa sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa dos carros e pessoas, às vezes, eles se tocavam e, ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. E então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.
Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela, que estava ali, no entanto. No entanto, ele que estava ali… Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas. E quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.
Tudo só por que tinham prestado atenção, só por que não estavam bastante distraídos.
Só por que, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo por que quiseram dar um nome; por que quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos…
6 de junho de 2010
Eu, lírica, do zelo desobrigada. Quarenta e oito horas pensando em não pensar o como fugir das tradições seculares. Eu, poesia desvairada, puta de olhos vermelhos saciando o desejo liberto da carne - ao telefone, a vida ocupada, mas o discurso flui constante, como constante flui a escrita longe dos olhos do Outro. Alteridades marginais, estranhas, línguas mortas falando o silêncio inominável. E nada paga a leveza do não ter que fazer o jogo das aparências.
Eu desfaleço, desfaço signo e sentido, simbolizo a desconstrução lírica de mim em versos livres, bobos, espelhos rotos, tortos, do Eu que não estou aqui.
À puta minha, semelhante livre que me abraça e me sacia e me acolhe pelo preço do pecado, obrigada.
Eu desfaleço, desfaço signo e sentido, simbolizo a desconstrução lírica de mim em versos livres, bobos, espelhos rotos, tortos, do Eu que não estou aqui.
À puta minha, semelhante livre que me abraça e me sacia e me acolhe pelo preço do pecado, obrigada.
3 de junho de 2010
Porcus Christi
A lenha crepitando no terreiro enquanto a água sobre o fogo virava fumo. À espreita, um galo velho olha triste o horizonte. Os primeiros grunhidos de desespero da criatura fadada ao Hades ecoaram quando o algoz lhe agarrou as pernas após a perseguição. A faca afiada penetrou-lhe o peito e o quente do sangue tingiu as mãos do homem de vida que se ia para sabe Deus onde. A dor lhe contorcia o ser enquanto o corpo se debatia inútil no chão de terra pisada. Aos meus olhos, vê-lo tão cruelmente morrer fez despertar o prazer pelo sofrimento alheio. A diversão era o espetáculo grotesco do sangue banhando a terra. Era ouvir grunhidos sangrando pela boca do leitão, enquanto as palavras me invadiam no mesmo desespero com que a vida lhe escapava. Aos poucos, a morte lhe envolvia. Tomava-lhe o ser com uma paixão cálida, gerada no bojo de um copo de vinho. Deitou-se nele como o amante sobre o corpo amado. Deixou que o corpo espasmasse ainda, momentos finais do prazer carnal. Bendito fruto de vosso ventre, Jesus, era morto.
A água quente limpou o couro e a pele alva revelou-se imaculada. O cheiro estúpido nauseia minha mente e o prazer é vômito que flerta com o sangue e penetra o olho de um formigueiro. Na lida de preparar o despojo, a incisão cirúrgica revela o corpo oculto. As vísceras quentes ecoam vida e envolvem minhas mãos com ternura maternal. É quente, como quentes são as palvras, as sensações, o asco prazeroso de ter nas mãos as entranhas do porco. O deleite da vida nas tripas, na merda, na mosca verde que pisa os olhos vidrados do defunto.
O sangue e o corpo do porco cozidos na boca do homem. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós devoramos o que nos tem apetecido. Os restos são ossos de palavras, relíquias das sensações, prazeres para fruição, que perduram depois da minha morte. Amém.
A água quente limpou o couro e a pele alva revelou-se imaculada. O cheiro estúpido nauseia minha mente e o prazer é vômito que flerta com o sangue e penetra o olho de um formigueiro. Na lida de preparar o despojo, a incisão cirúrgica revela o corpo oculto. As vísceras quentes ecoam vida e envolvem minhas mãos com ternura maternal. É quente, como quentes são as palvras, as sensações, o asco prazeroso de ter nas mãos as entranhas do porco. O deleite da vida nas tripas, na merda, na mosca verde que pisa os olhos vidrados do defunto.
O sangue e o corpo do porco cozidos na boca do homem. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós devoramos o que nos tem apetecido. Os restos são ossos de palavras, relíquias das sensações, prazeres para fruição, que perduram depois da minha morte. Amém.
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