Eu matei Alice, confesso. Assassinei-a com meus próprios olhos, com a ponta da língua que tudo cria. Com essa linguagem que confere a tudo o toque do real. Não me acuse de sadismo ou vaidade. Auto-preservação é lei dos deuses. Alice não era um deus. Matamos os mais fracos, os indecisos, aqueles que flertam com os reles mortais quando bebem do leite de Dionísio. Ela tinha olhos tristes. Mas a tristeza dos olhos era um canto rude, impreciso, o esgar do último cisne sacrificado. Nem uma flor nasceu das gotas de seu sangue. Nem as línguas dos coiotes famintos alcaçaram seus despojos. Alice envenenou-se. Eu a matei com seu próprio veneno. Por isso não me acuse de ser sádico. Se a tivesse deixado viva, cega, talvez sádico eu seria. Mas ela não era digna do destino heróico. Sempre foi fraca. Não era um deus. Eu sou o deus. Meu destino escrevi para criar, criar, criar. Então posso matar e reviver os seres quantas vezes quiser, se quiser. Alice morreu de vez e até o fantasma sucumbiu ao veneno. Para ela, nem vermes, nem flores, nem nada.
23 de abril de 2010
22 de abril de 2010
6 de abril de 2010
No ônibus
Eram olhinhos pequeninos de criança curiosa. Virou-se para mim e perguntou se eu vira o motoqueiro estirado no asfalto. Estava cheio de sangue! Não vi. Estava entretido fazendo este poema pros olhos dessa velhinha que tanto viu do mundo e que ainda se vislumbra com as coisas mais cotidianas...
2 de abril de 2010
Via Crucis
O peixe posto à mesa. Todos apóstolos. O vinho tamborilando nos lábios enquanto a chuva cai. Olhando o mar, o Senhor. Conhece os passos do calvário, mas não viveu. Não sentiu ainda a dor dos homens a quem vai lavar com sangue os pecados. Ele espera. Ele sempre espera. Quem e quando o salvarão? Condenado o pobre Rei, como condenados estão os que esperam ainda a salvação. Enquanto isso, vejo a chuva que cai na rua. Vejo posto à mesa o peixe. Ninguém escreve o evangelho se os milagres não se realizam. Espero. Eu sempre espero. Quem e quando me salvarão do abismo de mim?
Olhamos o horizonte. Magdala não vem. Só nos resta cumprir o calvário.
Olhamos o horizonte. Magdala não vem. Só nos resta cumprir o calvário.
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