31 de março de 2010

De quando [não] nos vemos

Vês? A relva quer que nos debrucemos sobre ela a contemplar as estrelas, a orvalhar com suor os corpos nus, a dizer com a voz silenciosa do olhar... Vês? O sol quer nos dourar na caminhada de dedos entrelaçados, iluminar o brilho dos teus olhos e incendiar meu desejo com teu sorriso... Vês? Os livros na estante clamam pelos dedos nossos e pela construção do sentido leve em uma rede na varanda... Vês? As rosas todas querem enfeitar os teus cabelos e nos sorriem e se curvam em reverência e aplaudem quando passamos pelos jardins... Vês? Todas as músicas querem embalar nossos corpos na dança lenta e quente e úmida da paixão... Vês? Essa brisa mansa que nos beija a face quer nos levar às nuvens no desfazer dos corpos...
Mas vê que isso só vejo quando presente se faz a tua ausência. E se tudo me some enquanto te vejo é porque só o que vejo és tu que me vês...

28 de março de 2010

As línguas monologam. Os discursos são bailarinas surdas que dançam no compasso de uma canção muda. A sintaxe tornou-se excludente e a poesia que pulsa no sangue quente quer libertação. Mas essa arbitrariedade do signo, essa convenção religiosa da gramática, essa pragmática obsolescente insiste em negar-lhe a vida.
Deita os olhos no horizonte da relva enquanto o fumo leve do incenso lhe cobre de flores.
Os flamingos ciscam ainda algum sentido no lodo do lago.

25 de março de 2010

(de Efraïn Bacuri)
O senhor anda acabrunhado e taciturno, seu Efraïn. O chão se abriu sob a poltrona e vislumbrei um abismo de sentidos. Por pouco, a caneca de chá não me escapa dos dedos. De onde Matilde tirara os adjetivos tão bem colocados? Adjetivos que não se ouvem na rua, tampouco fazem parte do palavreado cotidiano e menos ainda saltam assim, da boca das secretárias, como uma flecha que nos acerta o meio da testa. Não que eu tenha pré-conceitos linguísticos. Até o momento não sei se o que me supreendeu foi a constatação de meu estado ou o emprego dos adjetivos. Talvez as duas cousas.
Olhei absorto. Virei um gole do chá que me preparara. Obnubilado, Matilde, obnubilado.
Meia hora depois ela voltou. Seu Efraïn, o senhor precisa dardejar. Deveras, minha querida. Então peguei a pena e cá estou, dardejante como um raio de nuvem que obnubila o reflexo do sol num lago verde musgo.

A verdade da ironia

Sentidos obsoletos pairam nos olhos de palavras eternas
O verbo mascara
O gesto revela
O riso do gesto é a palavra mascarada.

Verdade?
Sentido?
Tudo máscara em desconstrução...

Só os sapatos duram mais.

O constatar dos fatos

Numa noite escura, os olhos se fecham e o mundo deixa de existir para Mafalda. Silenciosamente rio de sua atitude infantil.
Quando ela os abre, se maravilha com tudo.
Mas não faz sentido algum olhar os olhos que nada vêem.

Eu e a palavra

Sempre tive fome de palavras. Até hoje padeço do mal e mesmo que devorasse um dicionário não estaria satisfeito. Talvez eu tenha fome do sentido. Esses matizes móveis que bailam sobre a face áspera do verbo. Essas nuances que os tornam tenros, delicados ou fatais.
O melhor deles, que carrega em si todo o sabor e angústia do prazer, é o silêncio.