30 de novembro de 2009

Trecho de "O escritor"

(Ana Hatherly)

as palavras descem por sobre a face do poeta como cortinas de água que se fecham sobre a face horrorizada do poeta está dentro do lado de dentro ou então fora o símbolo desce sobre a face descoberta a face descoberta sento-me na minha pequena caixa de vidro que é a página que me isola e me expõe as palavras ao poeta surgem sobem descem sobretudo nascem exasperante a lentidão da mão escrevo tudo isto ilegibilidade porque escrevo o acto de escrever a experiência de o exprimir sem exprimir isto é tentando isso descem mil escritas por onde descem surgem da ilegibilidade dum lado leis doutro leis tudo são regras a transgredir

26 de novembro de 2009

The blues

(to Everton and Jan)

I like a flower...
I like a bird...
I like a bitch
...
...
over me!


25 de novembro de 2009

Esses poemas são andarilhos que vão taciturnos pela beira da estrada. Carregam consigo a amargura e a dor de todas as vidas do mundo. Nada buscam. Não têm destino. Não esmolam. Vão livremente pr'onde os leva a Ventura! E passam... vagarosos... por olhares ímpios. Representam, não a Poesia, o poeta.

5 de novembro de 2009

Noite quente


Entre o silêncio musical dos grilos e o sorriso das estrelas, os corpos se completam no doce ritmo do desejo. Sorvem-se os amantes. Embriagam-se do melácido que inunda a noite. Extasiam-se no aroma cálido que emana o ser e se dilaceram no instante fugaz, o qual é frêmito de luz, arquejo dos olhos que deliram no prazer.
Na noite quente, a água inunda os seres besuntados de paixão e devolve vida ao corpo dos amantes, enquanto o amor descansa no afago das línguas que tecem a poesia do beijo. Na noite quente, em carícias delicadas, os olhos beijam o corpo. Na noite quente, a água alimenta o fogo: fênix cristalina que sai da fonte e penetra o ser para saciar o insaciável, os amantes.

4 de novembro de 2009

Ciclo

E a água ferve até que evapora e vira nuvem. Depois, tudo é chuva.

3 de novembro de 2009

2 de novembro de 2009

Ao Mario

Na verdade, Mario,
aquele lampião ardendo na esquina da ruazinha escura
é minh'alma embebida de poesia.