"Há sempre algo de ausente que me atormenta."
Camille Claudel
29 de junho de 2009
28 de junho de 2009
O Sonho
(para L.)
de Pedro Ayres Magalhães
Madredeus
Quem contar
Um sonho que sonhou
Não conta tudo o que encontrou
Contar um sonho é proibido
Eu sonhei
Um sonho com amor
E uma janela e uma flor
Uma fonte de água e o meu amigo
E não havia mais nada...
Só nós, a luz, e mais nada...
Ali morou o amor
Amor que trago em segredo
Num sonho que não vou contar
E cada dia é mais sentido
Amor,
Eu tenho amor bem escondido
Num sonho que não sei contar
E guardarei sempre comigo
de Pedro Ayres Magalhães
Madredeus
Quem contar
Um sonho que sonhou
Não conta tudo o que encontrou
Contar um sonho é proibido
Eu sonhei
Um sonho com amor
E uma janela e uma flor
Uma fonte de água e o meu amigo
E não havia mais nada...
Só nós, a luz, e mais nada...
Ali morou o amor
Amor que trago em segredo
Num sonho que não vou contar
E cada dia é mais sentido
Amor,
Eu tenho amor bem escondido
Num sonho que não sei contar
E guardarei sempre comigo
23 de junho de 2009
Da prolixidade do silêncio
Não é que me tenham fugido as palavras ou sentidos ou as idéias que por elas se concretizam. Elas continuam aqui. É que os efeitos de sentido agora são outros, outras são as idéias; mudaram-se os referenciais. Estes perderam-se, por assim dizer, ou talvez existam para a teoria velha. É que um mundo de hipóteses outrora absurdas se revela concreto e interessante.
E o que calava agora diz e diz sem medo de dizer porque é tudo coisa de um silêncio só que nada dizia.
E o que calava agora diz e diz sem medo de dizer porque é tudo coisa de um silêncio só que nada dizia.
14 de junho de 2009
Êrba, sô Baco!
Em vez de vinho, cachaça. Em vez de bacanal, forró. Coro, trilha ao vivo, coreografias e recursos cênicos deram a impressão de uma verdadeira tragédia grega ao espetáculo Cabocla Tereza, apresentado agora à noite, no Municipal, pelo Núcleo de Teatro Experimental Nuevo-T, sob direção de Rildo Goulart.
Com imponente concepção cenográfica, o espetáculo é baseado na música homonina de João Pacífico e prima pela fidelidade na releitura do enredo, obtendo êxito no desenvolvimento dramático a partir da narrativa.
A plástica cênica foi muito bem concebida e levou o espetáculo ao Olimpo pelo público que, en pasant, compareceu em grande número. Apesar do luxo cenográfico que conferiu simplicidade ao ambiente e da ótima concepção cênica, a peça apresentou ausência do trabalho de ator.
Cabocla Teresa (Márcia Vilela) não apresentou energia nem beleza interior suficientes para encantar Bento (Roberto Azevedo) e o público. As falas na voz da moça não alcançaram a devida potência de projeção, tampouco a vibração e intensidade na interpretação. Com exceção à projeção vocal, pode-se afirmar que também faltaram à Joana (Gabriela Carvalho) as devidas intensidades que perderam espaços para uma fala cantada. Roberto Azevedo e Maurício Fuscaldo - este interpretou Tonho - foram brilhantes na atuação. Destaque para João Ricardo Pagliarani cujo personagem, Candeeiro, tem a função de significar a atuação das divindades que regem o destino dos homens. Pagliarani, cujo bom gosto também está presente na concepção do figurino de todo espetáculo, brilha ao conferir ao personagem certeiras posturas e intensidades gestuais, além das impagáveis expressões do grande ator que é.
O coro merece destaque pela coreografia compassada em vários momentos da trama, mas deixa a desejar em termos de canto e sonoridade. Cumpriu sua função de interligar conflitos e cuidar da narrativa do drama. Ainda no âmbito sonoro, os músicos mostraram-se brilhantes na execução da trilha que conferiu à peça toda a ambientação de "causo". Brilhante!
Com esse espetáculo a cidade estará muito bem representada na fase regional do Mapa Cultural. Os aplausos calorosos foram merecidos, principalmente pelo cumprimento do desafio proposto de montar a peça em menos de dois meses. Agora é ponderar e ajustar aquilo que nunca fica pronto.
Merda!
Com imponente concepção cenográfica, o espetáculo é baseado na música homonina de João Pacífico e prima pela fidelidade na releitura do enredo, obtendo êxito no desenvolvimento dramático a partir da narrativa.
A plástica cênica foi muito bem concebida e levou o espetáculo ao Olimpo pelo público que, en pasant, compareceu em grande número. Apesar do luxo cenográfico que conferiu simplicidade ao ambiente e da ótima concepção cênica, a peça apresentou ausência do trabalho de ator.
Cabocla Teresa (Márcia Vilela) não apresentou energia nem beleza interior suficientes para encantar Bento (Roberto Azevedo) e o público. As falas na voz da moça não alcançaram a devida potência de projeção, tampouco a vibração e intensidade na interpretação. Com exceção à projeção vocal, pode-se afirmar que também faltaram à Joana (Gabriela Carvalho) as devidas intensidades que perderam espaços para uma fala cantada. Roberto Azevedo e Maurício Fuscaldo - este interpretou Tonho - foram brilhantes na atuação. Destaque para João Ricardo Pagliarani cujo personagem, Candeeiro, tem a função de significar a atuação das divindades que regem o destino dos homens. Pagliarani, cujo bom gosto também está presente na concepção do figurino de todo espetáculo, brilha ao conferir ao personagem certeiras posturas e intensidades gestuais, além das impagáveis expressões do grande ator que é.
O coro merece destaque pela coreografia compassada em vários momentos da trama, mas deixa a desejar em termos de canto e sonoridade. Cumpriu sua função de interligar conflitos e cuidar da narrativa do drama. Ainda no âmbito sonoro, os músicos mostraram-se brilhantes na execução da trilha que conferiu à peça toda a ambientação de "causo". Brilhante!
Com esse espetáculo a cidade estará muito bem representada na fase regional do Mapa Cultural. Os aplausos calorosos foram merecidos, principalmente pelo cumprimento do desafio proposto de montar a peça em menos de dois meses. Agora é ponderar e ajustar aquilo que nunca fica pronto.
Merda!
Dã gu nhaaaa AMIGOS!
A tarde deste domingo foi animada, para algumas crianças, pelas palhaçadas da dupla Ricardo Dias e Maurício Fuscalco, no espetáculo infantil de estética pantomímica. Com mais de quarenta minutos de atraso, por problemas com maquiagem de má qualidade, o ato se iniciou e pareceu agradar aos pequenos que estavam presentes. Adultos também riam à medida em que dois personagens clownescos viviam atitudes cotidianas comunicando-se apenas com sons guturais. De trapaças à academia militar, passando por falcoaria e duelos, os palhacinhos brincavam no que parecia a concretização de um território onírico: um "onde" no qual as coisas possíveis possuem graça e leveza, dispensando qualquer linguagem verbal. Bendita linguagem artística!
O trunfo do espetáculo é justamente não ter o tradicional texto escrito. Se este lá estivesse, certamente o efeito não seria o mesmo. Apesar disso, a [re]forma do óbvio não foi feita tanto pelos artistas em palco, mas pelo público que acompanha o desenvolvimento dos fatos: ouvi crianças descrevendo as coisas que "viam", quando, na verdade, o invisível imperava. Inclusive a graça.
De fato, a estética foi bem concebida pela direção; com tudo muito simples e bem cuidado nada deixou a desejar em termos de figurino, cenário - as cabanas lembravam máscara de folia de reis sem expressão - interpretação e sonplastia. Há que se ressaltar a iluminação que envolveu o espetáculo desde a entrada até a saída, dando ambientação circense ao velho teatro.
Apesar do insucesso de público, previsível em tal horário e pela falta de divulgação deste espetáculo, especificamente, foi possível ouvir muitas gargalhadas dos pequeninos ali presentes.
Até o momento, me pergunto por quê eles riram tanto enquanto eu devo ter esboçado um pálido sorriso apenas uma ou duas vezes. Crianças... riem de tudo e de todos.
O trunfo do espetáculo é justamente não ter o tradicional texto escrito. Se este lá estivesse, certamente o efeito não seria o mesmo. Apesar disso, a [re]forma do óbvio não foi feita tanto pelos artistas em palco, mas pelo público que acompanha o desenvolvimento dos fatos: ouvi crianças descrevendo as coisas que "viam", quando, na verdade, o invisível imperava. Inclusive a graça.
De fato, a estética foi bem concebida pela direção; com tudo muito simples e bem cuidado nada deixou a desejar em termos de figurino, cenário - as cabanas lembravam máscara de folia de reis sem expressão - interpretação e sonplastia. Há que se ressaltar a iluminação que envolveu o espetáculo desde a entrada até a saída, dando ambientação circense ao velho teatro.
Apesar do insucesso de público, previsível em tal horário e pela falta de divulgação deste espetáculo, especificamente, foi possível ouvir muitas gargalhadas dos pequeninos ali presentes.
Até o momento, me pergunto por quê eles riram tanto enquanto eu devo ter esboçado um pálido sorriso apenas uma ou duas vezes. Crianças... riem de tudo e de todos.
12 de junho de 2009
Só meu
de Jhenifer
frustra-se por ler meus versos?
frustra-se por procurar, encandecidamente, a minha vida
em cada linha aqui [d]escrita?
mas está errado
está tudo errado
busque você a mim
porque a minha escrita é pra você
é por você
não se importe com o que me levou
a traçar essas linhas tortas
mil vezes tortas
- isso não importa!
basta buscar você
busque, vai, busque!
está tudo em silêncio
faz um siêncio acolhedor e também por isso estou aqui
estou aqui inteira
uma tarde toda
abraçada a esse branco que se quer manchar
não importa a cor
mas que seja com sangue
e você, depois do feito,
não me venha perguntar os porquês
por favor, não venha
porque o antes é um segredo
só meu
e o depois... está com você
frustra-se por ler meus versos?
frustra-se por procurar, encandecidamente, a minha vida
em cada linha aqui [d]escrita?
mas está errado
está tudo errado
busque você a mim
porque a minha escrita é pra você
é por você
não se importe com o que me levou
a traçar essas linhas tortas
mil vezes tortas
- isso não importa!
basta buscar você
busque, vai, busque!
está tudo em silêncio
faz um siêncio acolhedor e também por isso estou aqui
estou aqui inteira
uma tarde toda
abraçada a esse branco que se quer manchar
não importa a cor
mas que seja com sangue
e você, depois do feito,
não me venha perguntar os porquês
por favor, não venha
porque o antes é um segredo
só meu
e o depois... está com você
10 de junho de 2009
de Juliana Silveira
Era o fim, os argumentos estavam mortos, dissolvidos cruelmente em um copo de leite com chocolate. Você me pergunta: __ Qual é seu problema? Eu abaixo a cabeça, olho para os lados, não respondo. Ela insiste: __ Eu não entendo você. Continuo em silêncio, olhando para os lados. Lá fora chove, chove muito, sempre à tarde para acordar os defuntos de suas covas de monotonia. Ela começa a andar pelo apartamento com o copo de leite com chocolate nas mãos, eu continuo sentado, imóvel, doente das emoções.
Era o fim, os argumentos estavam mortos, dissolvidos cruelmente em um copo de leite com chocolate. Você me pergunta: __ Qual é seu problema? Eu abaixo a cabeça, olho para os lados, não respondo. Ela insiste: __ Eu não entendo você. Continuo em silêncio, olhando para os lados. Lá fora chove, chove muito, sempre à tarde para acordar os defuntos de suas covas de monotonia. Ela começa a andar pelo apartamento com o copo de leite com chocolate nas mãos, eu continuo sentado, imóvel, doente das emoções.
9 de junho de 2009
Noturno de uma criança velha
Um grilo canta num intervalo de dois segundos.
Eu vejo as estrelas que estão ali no céu.
Passa uma coruja
e pia.
O grilo silencia.
Que pena,
não era a cotovia.
Eu vejo as estrelas que estão ali no céu.
Passa uma coruja
e pia.
O grilo silencia.
Que pena,
não era a cotovia.
8 de junho de 2009
Êxtase em Com-Fluência
Ontem à noite, no Tatro Municipal Tenente Mário Bernardes, as bailarinas Betty Gervitz, Sonia Galvão, Maria Moane, Cíntia Kowahara, Deborah Nefussi, e a cantora Sônia Mindlin encantaram o público com o espetáculo Com-Fluência que deixou-me as mãos trêmulas e a sensação de bem-estar.
O espetáculo é composto por danças étnicas que percorrem desde rituais hindus até a sedução flamenca. A confluência dos ritmos é fruto do percurso sonoro que vem da Índia, influencia a Arábia e desagua na Espanha gitana de Andaluzia e Sevilla. Com solos, duetos e conjunto, o espetáculo prima pelas características de cada ritmo que se entrelaçam sem perder a individualidade.
O que chama a atenção são as bailarinas: senhoras com anos de experiência e corpo teso pelo execício da dança. A sedução presente no palco vem da experiência e da energia telúrica que cada ritmo imprime ao corpo, numa ritualística mística que envolve artistas e público.
A técnica é espetacular. No figurino simples reside a candura de cada etnia que encanta pela harmonia das cores e do movimento - até agora um pano vermelho corre ao vento sobre minha face. A iluminação não apresenta muitas novidades e constitui exatamente a ambientação necessária para o enlevo. A trilha, com elementos conhecidos, supreende pela presença de solos vocais feitos por Sônia Mindlin, que poderia ter dispensado o uso de microfone dada a beleza e potencial da voz. O uso de tal recurso prejudicou o entendimento das letras das músicas cantadas em espanhol.
A ponderação fica para o espaço. Um praticável era visível por um buraco enorme na rotunda velha do velho teatro. Coisas que estão por desaparecer e com as quais nem vale à pena se preocupar. A Secretaria de Cultura, devidamente representada pela pessoa de sempre, fica orgulhosa em trazer para a cidade um espetáculo de tamanha grandeza. O que se espera, agora, é que haja infra-estrutura para as coisas grandes que estão por vir. E que venham muitos e muitos espetáculos que causem tanto êxtase para a alma quanto Com-Fluência causou.
O espetáculo é composto por danças étnicas que percorrem desde rituais hindus até a sedução flamenca. A confluência dos ritmos é fruto do percurso sonoro que vem da Índia, influencia a Arábia e desagua na Espanha gitana de Andaluzia e Sevilla. Com solos, duetos e conjunto, o espetáculo prima pelas características de cada ritmo que se entrelaçam sem perder a individualidade.
O que chama a atenção são as bailarinas: senhoras com anos de experiência e corpo teso pelo execício da dança. A sedução presente no palco vem da experiência e da energia telúrica que cada ritmo imprime ao corpo, numa ritualística mística que envolve artistas e público.
A técnica é espetacular. No figurino simples reside a candura de cada etnia que encanta pela harmonia das cores e do movimento - até agora um pano vermelho corre ao vento sobre minha face. A iluminação não apresenta muitas novidades e constitui exatamente a ambientação necessária para o enlevo. A trilha, com elementos conhecidos, supreende pela presença de solos vocais feitos por Sônia Mindlin, que poderia ter dispensado o uso de microfone dada a beleza e potencial da voz. O uso de tal recurso prejudicou o entendimento das letras das músicas cantadas em espanhol.
A ponderação fica para o espaço. Um praticável era visível por um buraco enorme na rotunda velha do velho teatro. Coisas que estão por desaparecer e com as quais nem vale à pena se preocupar. A Secretaria de Cultura, devidamente representada pela pessoa de sempre, fica orgulhosa em trazer para a cidade um espetáculo de tamanha grandeza. O que se espera, agora, é que haja infra-estrutura para as coisas grandes que estão por vir. E que venham muitos e muitos espetáculos que causem tanto êxtase para a alma quanto Com-Fluência causou.
5 de junho de 2009
2 de junho de 2009
(para L.)
Não quero teus olhos tristes e o teu coração ferido.
A mim me bastam os meus.
Quero teu desejo,
a poesia ainda oculta em tua alma,
paixão em noite de lua.
Quero o vinho nos lábios teus,
a cadência de um blues...
Que o teu ser nasça com o meu
curioso
libertino
nu e cálido...
E quero o fogo delicado de tuas mãos sobre o meu corpo
O meu beijo no teu sexo
E o infinito no instante.
Não quero teus olhos tristes e o teu coração ferido.
A mim me bastam os meus.
Quero teu desejo,
a poesia ainda oculta em tua alma,
paixão em noite de lua.
Quero o vinho nos lábios teus,
a cadência de um blues...
Que o teu ser nasça com o meu
curioso
libertino
nu e cálido...
E quero o fogo delicado de tuas mãos sobre o meu corpo
O meu beijo no teu sexo
E o infinito no instante.
1 de junho de 2009
de Lígia Winter
e tudo isso é todo nada.
não há mais fotos como rastros
imensos arranha céus
sopra uma luz milenar que é o mesmo
que um grito imenso num buraco negro
grãos de arroz voltam no tempo antes do casamento
cães pequenos estão perdidos
meninos arranhados com o susto
do nunca e mesmo assim os fractais.
Tudo isso é todo nada.
apenas um impossível e angustiado
assovio
para dentro
mas você insiste
em acontecer.
e tudo isso é todo nada.
não há mais fotos como rastros
imensos arranha céus
sopra uma luz milenar que é o mesmo
que um grito imenso num buraco negro
grãos de arroz voltam no tempo antes do casamento
cães pequenos estão perdidos
meninos arranhados com o susto
do nunca e mesmo assim os fractais.
Tudo isso é todo nada.
apenas um impossível e angustiado
assovio
para dentro
mas você insiste
em acontecer.
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