28 de maio de 2009

24 de maio de 2009

Laranja

de Efraïn Bacuri

Da janela do apartamento, observo as pessoas que caminham por entre as barracas coloridas da feira lá embaixo. Há cabeças de todo tipo: grandes, pequenas, louras, morenas, carecas, cobertas por coisas curiosas como, por exemplo, um boné que, deste ângulo, parece um alvo. Ao vê-lo, brota em mim a vontade de deixar com que um de meus vazinhos de flor viaje guiado pela gravidade até o alvo na cabeça. Mas não sou capaz disso. Seria maldade com a florzinha, além do quê, ele não estava imóvel.
Vendo as cabecinhas caminhantes, não sei por que cargas d'água dá-me o querer de uma laranja. Deito a caneca de chá na pia e desço à feira para comprar algumas. Não saio sem colocar sobre a cuca a boina preta que trouxe de Espanha.
Na feira, sou mais uma cabeça que compõe a paisagem. Os meus olhos passeiam por todo o ambiente procurando a barraca das laranjas. Cruzam com outros olhos, desconhecidos e indiferentes, passam por melancias, melões e uma pomba na jaca que um japonês espanta muito enfezadamente. Avisto-as e vou em sua direção. Uma senhora de cãs simpaticamente revolvidas pelo vento escolhe algumas para mim. Não sei qual é o critério para escolher laranjas. Matilde é quem sempre as compra. Preciso perguntar isso a ela quando vier para o almoço, junto com a família.
No apartamento, abro e saboreio uma das frutas: cheirosa, tenra, doce. Depois disso, cuido dos afazeres dominicais: regar as plantas, ler o jornal, verificar o e-mail, abrir um velho livro de poemas e ler como uma oração para o espírito. Depois preparo o almoço, pouco antes de as visitas chegarem. Com algumas laranjas, faço uma salada com azeite, azeitonas pretas e algum condimento.
Matilde chega com o marido e as crianças que, mal chegam, pedem livros e querem que eu conte histórias e que ensine um novo origami. Matilde diz que estou criando monstros e acostumando mal essas criaturas. Não creio. Faço a vontade dos pequenos enquanto converso com os adultos. Ela põe a mesa e hoje é permitido esquecer o cerimonial. Falo das laranjas e me explicam como escolhê-las pela cor e consistência.
A menina, sempre com olhinhos atentos a tudo que falamos, pergunta o por quê a laranja se chama laranja, se por fora ela é verde e por dentro amarela. Eu olho espantado para ela. Não me ocorrera, até então, o motivo de a laranja se chamar laranja, observando-se que, na maioria das vezes, nem alaranjadas elas são. Como se não bastasse, a guria emenda indagando o motivo de a cenoura se chamar cenoura, sendo que deveria se chamar laranja por ser alaranjada!
Eu fico sem palavras e olho para Matilde com expressão de socorro. Ela é mãe, deve estar acostumada às indagações pueris dos filhos. A mulher sorri de modo angélico e diz à filha que foi Deus quem dera o nome para as coisas e que aquela aparente bagunça, na verdade, é poesia divina. A menina acena com a cabeça e se entretem com o livro que lhe dei.
Sento-me atônito com o que acabo de ouvir. Eu, que jurava saber responder às mais complexas questões Academia, sou pego de calças curtas pela dúvida de uma menininha que começa a pensar nas coisas do mundo. Mas não é isso que me pasma. É a poesia de mãe que sabe explicar as coisas para o filho. É a poesia de criança que entende tudo na linguagem simples de sua mãe.
Matilde volta da cozinha trazendo nas mãos a refratária com a salada de laranja. O marido diz para os pequenos lavarem as mãos e se sentarem à mesa. A conversa flui sobre o cotidiano e suas fabulosas novidades. Enquanto falamos e comemos, a laranja vai derramando sua poesia doce no paladar deste domingo alaranjado.

23 de maio de 2009

Crônico

É tarde e Adriana pergunta dos meus amigos e do meu Amor. Aqueles, eu diria que vivem suas vidas em algum lugar da cidade pacata. Este... Neste eu penso e não sei. Sei de uma Loucura, de um Sonho, do mel da Flor que ainda adoça a boca...
Vejo, ao lado, o livro de Mario e me lembro do encontro de ontem à noite, na onírica dimensão do subconsciente. O Avozinho me confessou o cotidiano de sua Poesia, a soturnidade de alguns versos e a dor que tinha nas coisas de todo dia. O seu afago, pesado, terno, cheio da angústia e ao mesmo tempo confortante, me fez lembrar um doce amigo cujos olhos abraçam almas. Mário explicou-me Carlos e Manuel. A quem contei, pensaram ser mais uma loucura de minha lucidez.
Deixa, deixa...
Eu tento ver a diferença do indivíduo e do Sujeito. Da fragmentação e da plenitude que não mais existe. Busco minhas teorias: o novelo discursivo. Parece piada, mas, a única coisa que me vem à mente, neste instante, é saber que "grileiro" vem da falsificação de documentos com grilos mortos. A esse fato antológico do dia eu associo a descoberta de que "doceria" não existe. E a vida toma outros rumos a cada pancada linguística. A cada pancada física. A cada soco na alma.
Efraïn passou aqui há pouco. Brigou comigo por coisa besta. Não se foi. Implicou até conseguir o que queria. Ele e a sua mania de menino bobo. Às vezes ,é melhor fazer a vontade das pessoas do que brigar por pouco. Há quem diga que isso é assujeitar-se. Que seja.
Deixe que digam, que pensem, que falem...
As notas retumbam numa melodia triste agora. Apesar de não sofrer, dói-me a partida de um espelho do intelecto. Do espelho do Ser, talvez. Dói-me porque me sinto corpus de minha própria tese. Penso com as próprias pernas e não tenho o reflexo de mim. A crítica do outro. Talvez o espelho não se tenha partido. Talvez seja apenas cansaço da reflexão, não é?
O Velho fala da borboleta amarela e do Vento Noroeste. Fala de coisas que só ele sabe falar, de um jeito só dele. Eu queria apenas que o Noroeste varrese as folhas, como fez com as folhas, as flores, as luzes, os meses, os anos de Manuel; do Velho.
Mas eu não sei fazer o vento soprar igual a eles. Eu faço apenas bolhas de sabão que se perdem no éter e sequer derramam o frescor na alma das criaturas.
A imaginação voa. Voa e se perde como a borboleta amarela. Voa e adentra salas por janelas como na história de um Bruxo. Bruxo que odeio. Bruxo que amo. Bruxo que invejo na riqueza das coisas ditas e não ditas.
As Parcas me aparecem e peço que enrolem meu novelo e que talhem o cordão. Elas riem. Debochadamente, riem da minha situação, do meu medo, da minha fúria. Chamo Cronos e o que se materializa no espaço das entrelinhas é a teoria semiótica e o estalo da obrigação por fazer.
Me pergunto se isso tudo vale a pena. Fernando responde com maestria, mas eu não entendo o tamanho de minh'alma. Sinto só que meu corpo é pequeno pra tudo que sinto, pra tudo que quero ser. E se vale a pena ou não, já não me importa mais. Tudo o que eu queria é que tocasse um tango argentino. Mas nem dançar eu posso.
No fim deste solilóquio polifônico, crônico, nada mais vai importar, porque, quando a arte se encontrar com a realidade, vai ver que isso tudo só pode ser por que você me lê.


22 de maio de 2009

Sob a chuva

Era uma chuva de chuá intenso. Eu, no meio da rua na cidade deserta, ia sem saber pra onde. As gotas tocavam meu corpo com celeste violência, que as feridas de minha pele soltavam as cascas e o sangue vinha à tona, fluindo como poesia, fundindo-se com a água a escorrer sobre mim.
A chuva me livrava das chagas do ser.
Ocupei espaço entre as gotas, fundi-me à poças e enxurradas. Dos meus olhos vinham secas lágrimas que se perdiam em meio a água e sangue.
Eu ia.
Ia seco, sob a chuva.

21 de maio de 2009

Que diz

Que diz o coração à mente?
Sinta.
Que diz o espírito ao corpo?
Sinta.

Sinto
muito
em não sentir.

20 de maio de 2009

Momento

de Mário Quintana

O mundo é frágil
E cheio de frêmitos
Como um aquário...

Sobre ele desenho
Este poema: imagem
De imagens!

19 de maio de 2009

Harriett

de Caio Fernando Abreu

(...) Sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía de vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu deus como você me dói de vez em quando. (...)

17 de maio de 2009


Quando os teus olhos fizeram rir os meus, os meus pés perderam o chão.
Teu hálito quente enebriou-me os sentidos
e os teus lábios surpreenderam os meus com a graça de um beija-flôr.
Não mais imagino coisas.
Se imaginasse
se sonhasse novamente,
ai de mim,
diria que um sonho se tornou realidade.
Mas esta, sonho se fez.
O sonho num sono acordado,
no pulsar ardente de uma noite fria.

O mel sorvi das tuas pétalas, Flor...
Em minha boca,
o arquejo,
pura graça de mulher...
Doces foram teus gestos,
o deslize dos teus cabelos sobre meu peito,
nossas vozes e o riso suave no respirar ofegante...

Quando a noite se fez dia,
cuidei dos sonhos teus até que voltasses a acordar.
Quando acordaste,
sonhamos por entre nuvens e
na manhã
estrelas.

Depois, voltamos ao real.
O que ficou?
O bobo riso de um sonho bom...



6 de maio de 2009

Inspirado no quadro "Shoes" de Vincent Van Gogh

de Leidiane Vicente

Ao calor da aurora esvaiu-se meu cansaço infindo e eu posso enfim deixar-me levar pela dor do entardecer. No caminhao para a consolação do lar concebo-me um pensar, que ali se vai mais um dia de sonho, oh! como é preciso a força da ilusão para curar essa imensa solidão.
Quando avisto minha morada tão frágil e apoucada, adentro-me e sento sobre um ralo colchão para retirar minhas botas grosseiras, e no ato em que as tiro, posso dessa forma extrair também, o corajoso ânimo de um trabalho campestre que de tanto em tanto me sacode a alma de tristezas desconhecidas. Num suspiro moroso, tento imaginar como seria a vivência em outros solos gentis, onde exista acuidade na vida dos mortais, um sensível bom dia e a essência de uma mulher.
De repente me forra o peito uma lassidão, e eu, leve, leve, deixo-me deitar, cerrando os olhos vagaorsamente imploro por sonhos brandos, dignos de anseios para um amanhecer intenso.
Amanhã é outro dia.


5 de maio de 2009

A Flor e o Lagartinho

de Efraïn Bacuri

O lagarto ao sol, com a pancinha pra cima, vira de lado a cabeça de modo rápido e atento.
O lagarto bebe o sol e a florzinha ao seu lado sorve a imagem do lagarto.
De repente, ele se vira e, ao que parece dois passinhos, dá vários, e bate a cauda na terra fofa. Move rápido a cabecinha.
Depois some pras entranhas da terra.
E eu fico a ver a flor.

4 de maio de 2009

Memórias de Infância

A brotoeja vovó curava com puejo
Erizipela, uma benzedela
e a arruda fazia cair verruga
- Mas eu sempre insisti em apontar estrelas! -
O alcrim era pro coração
Erva santa-maria matava as bichas
E toda manhã tinha sabor de hortelã.