29 de março de 2009

Quero a puta

Eu quero a puta
com sua vulva estúpida.
Quero a febre da sífilis na cama.
E quero a puta
e a língua louca
e os desejos loucos
o arquejo insano.
Quero a puta de bunda gorda,
puta de seios fartos.
A dor da puta,
caralho!
Eu quero a puta!

25 de março de 2009

Uma conversa

de Adauto Leva

Sentado ao lado dela sobre o muro, estica o braço e apanha a flor rosa do hibisco à frente deles.
'Era uma vez uma rainha muito bonita e delicada. Muito pudica também, não permitindo a presença de suas aias nos seus momentos mais íntimos, o que contrariava a tradição do reino. Assim, sozinha, ela tira a coroa. Depois, vai tirando calmamente as diversas peças de roupa que compõem os trajes reais. Tira uma peça, depois outra, mais uma e mais outra. Pelada, ela senta na privada para fazer cocô'. E ia finalizar a história apertando o fundinho da flor despetalada do hibisco. Ela interrompeu.
'Que história boba. Você é um cara engraçado, mas às vezes tem umas coisas meio estranhas. Ela não havia gostado da historieta nem de ver a flor ser despedaçada. Ainda assim, ternamente ela pergunta 'por que esta cara de tristeza?'
'E se você me perguntasse por que eu não estou com cara de alegria?'
Ele sempre respondia com uma pergunta às perguntas dela. Na verdade, isso acontecia não só com ela, mas com qualquer outra pessoa que lhe perguntasse algo que o fizesse sentir-se acuado. Conscientemente fazia isso para poder ganhar tempo. Inconscientemente, tentava em vão demonstrar superioridade ao repetir a pergunta com cara de que pergunta estúpida é esta que você está me fazendo?
E naquela tarde sentada junto dele no muro ela reclamou disso, cometendo o único deslize de deixar um tom interrogativo no final da sua frase.
'Eu sempre respondo com perguntas?'
Sim, ele sabia (e reconhecia apenas para si próprio) que respondia com perguntas. Quase sempre. Era um tergiversador. Conhecia bem os atalhos que o levavam à tangente.
'Por que você foi embora sem um tchau ontem?'
Para uma pergunta direta só caberia uma resposta direta. Não responderia perguntando. Diria que foi embora porque quando estava no balcão tomando uma cerveja com um amigo a viu chegando no bar com uuma turma grande, todos muito animados, especialmente ela, entretida em gargalhante bate-papo com um tipo surfista. Ficou com ciúmes e resolveu sair à francesa. Diria isso para ela. Diria que não, nao tenho estofo para essa coisa solta, não consigo ficar no mesmo bar que você e cada um numa mesa, sou careta mesmo e quero andar de mão dadas no parque no domingo à tarde, quero sexo no sábado e macarronada na quinta, sou antiquado e quadrado, Mas ante a pergunta tão direta, respondeu secamente 'não vi você na mesa, acho que estava no banheiro'.
Ela não estava no banheiro. Estava conversando com uma amiga no canto da mesa perto da parede e o vira passar sem nem ao menos dar uma olhadela. Essa sua última resposta fora suficiente, era um tipo estranho e não entendia como pode ter se apaixonado por ele em tão pouco tempo. Mas não havia jeito. O assunto acabara. Ela não diria mais nada, não sentiria mais nada. Não haveria evolução daquilo que ele chamara de coisa solta. Ambos encaravam o nada à frente, entrecortado pelas flores do hibisco balançando ao vento. Para dissipar as nuvens daquela conversa que não foi a lugar nenhum, ela voltou à historia da rainha contada por ele enquanto despedaçava a flor com dedos trêmulos, fingindo um domínio de situação que ele sabia não possuir, 'e a rainha, por que ela não fez cocô?'
'Prisão de ventre, coitada'. E pulou do muro ao chão.





Adauto Leva é meu ídolo! Sim, ele sabe. ^^
O leio desde os tempos que antecederam o Inferno Verde e, lá quando eu estava, Leidiane mandava as coisinhas que ele publicava aqui. Semana passada estive no lançamento do livro dele. Na verdade, relançamento porque a primeira edição foi por outra editora. O livro se chama "Primeiro do Ano", (Ed. Grua, 2.ed., 2008, 76p.).
Fabuloso! São Contos com uma amarração romanesca. Narrativas leves, cheias de encanto cujos temas giram, basicamente, na relação amorosa. Platonismos, desilusões, encantos e desencantos e vivências intensas que marcam a alma.
Tomei a liberdade de publicar este conto aqui, primeiro porque estou sem idéia de post e ainda é cedo para cair na falta de assunto. Na verdade, é catarse pura. Talvez um dia eu poste mais Adauto, ou não.

24 de março de 2009

23 de março de 2009

Não quero um epitáfio...

de Gustavo Pilizari



“Eu não me arrependo de nada... Fiz tudo que deveria ter feito... Aproveitei bem a vida... Já posso morrer...”

Senhoras e Senhores, membros do Júri!
Queiram ouvir a verdade, nunca dita, temida e escondida!

Jamais aproveitaremos a vida o suficiente, para que dela não tenhamos saudade e não venhamos a sentir sua falta!
Sendo nosso maior bem, cabe a nós lutarmos para a eternidade, quando não nada mais basta, nada adianta, tudo em vão!

Nunca teremos aproveitado a vida a ponto de trasbordá-la em excesso. Jamais!
É sempre ridículo o nosso prazo de validade na terra, é sempre ridículo!
Ouçam-me bem!
E na verdade, não escolhemos nada, e não nos dão nada, tirando-nos de cena de forma fugaz, sem nossa própria autorização.

Senhoras e Senhores que aqui jazem:
Queiram recolher as lágrimas...
Queiram dizer um basta a morte...
Queiram profanar contra esta maldição que nos rodei, espreita-nos de forma repugnante!

Libertai-nos do mal...

Amém...

18 de março de 2009

Ao Márcio

de Jhenifer Thaís


Ah!, como gosto de tua poesia!
Não porque, uma ou outra, ora rimam.
Ou, tampouco, porque
Dispõem-se, vezes, em versos.
Mas porque trazem, alheio à forma,
A competência de construir um universo
Que em essência
É sangue d'Almanidade!

- É meu inverso -

17 de março de 2009

Estações

de Efraïn Bacuri

Na caneca de chá vejo as folhas secas que lentamente tingem a água de ocre. O perfume sutil que exala da infusão é imagem velha da criatividade mórbida e pobre do enunciador.
No fim do verão choveu. Nuvens cinzas cobriram o sol numa tarde quente. Quando se foi a chuva já era noite e não havia estrelas.
A primavera fora rápida: onze horas, damas da noite e uma rosa azul que murchou tão logo quanto floriu.
Agora é outono e tudo que há são folhas secas para fazer o chá.
Amanhã será inverno, os galhos hão de estar vazios e os animais hão de hibernar. Não haverá poemas para ler junto à lareira.
Sequer haverá lareira.

16 de março de 2009

Cecília

Não ria, Cecília, não ria.
Dá-me antes o teu desvelo de mãe
o teu beijo terno e o abraço quente.
Explica-me as coisas do mundo
o que se passa no fundo
do coração da mulher.

Não ria, Cecília, não ria.
Não ria por que sou poeta
e o teu riso não cabe no meu verso disforme.

- Vá, poeta. Vá fazer versinhos,
como choram os passarinhos,
em uma gaiola, com fome.

11 de março de 2009

A imagem de nós dois

de Efraïn Bacuri

Você me diz que quer ser feliz, quando eu digo que gostaria de ser cantor. Não sei precisar os motivos de querer cantar, tampouco as razões de tua não-felicidade. Ficamos suspensos, abstratos, presos à leveza de imagem deste texto pobre em forma e conteúdo.
Enquanto isso, lá fora cai uma chuva calma que a nós causa enlevo. Há muita angústia lá fora, eu sei. Sei por que deu no rádio: Chuva traz angústia aos moradores da zona leste. Penso que eles não deveriam ficar angustiados, logo o sol nascerá primeiro daquele lado. Certamente o locutor ou o jornalista não entende muito de imagem. Chuva traz angústia. Angústia. A palavra martela em minha mente como o verso de certo poeta dentuço. Imagem bonita a do poeta, lírica, emocionante.
Ninguém entende o suficiente de imagem, você me diz. Acrescenta com sua sinceridade pudica que elas se repetem o tempo todo e que tudo é como eu digo, tudo se recria, se transmuta, se transforma. Tudo flui. Não sei se o que digo é válido. Você diz que sim. Francamente, eu não sei.
Quer um chá? Está cálido, leve, mui apetitoso. Sempre conversamos com canecas à mão. Conclusões (in)fundadas numa ciência subjetiva.
O silêncio chega sorrateiramente e impera absoluto e caprichoso. É uma criança mimada que consegue a atenção de todos. Eu ouço o silêncio. Ele me diz tudo sobre a felicidade que você busca. De repente, me bate uma vontade besta de tomar chuva. Abro a janela, estendo a caneca pra fora derramando o chá. Viro-a para que ela se encha de gotinhas d’água. Em pouco tempo está cheia e sacio o meu desejo.
Você olha com assombro meu gesto infante como se aquilo não fosse comum. Essa sua mania de estranhar tudo que é humano! Eu tomo a chuva e a angústia toma conta de mim. Olhamo-nos de modo vago e pleno. Pobres e tácitas imagens ouvindo o silêncio do rádio que angustia, chuvosamente.

9 de março de 2009

Reflexões sobre o exercício de educar

Uma esfera nova principia a se revelar. Tudo é empolgante, divertido e tem o gostinho do desafio que nos alimenta a vontade de crescer. Não é fácil. Ao mesmo tempo em que cresce o fascínio cresce também a indignação para com as imagens ultrapassadas e obsoletas de um sistema velho e capenga. Sem a utopia de revolucionar o todo e com a consciência das minhas limitações, dos meus deveres e obrigações começo a percorrer os trilhos da educação escolar.
Dizem que o sistema educacional está falido e que a rebeldia infundada dos alunos, somada ao desinteresse que têm, é a causa do grande mal que assola a escola. Realmente, uma parte das falhas na educação é responsabilidade dos alunos. Ouso ir além, digo que a responsabilidade é dos pais, uma vez que não educam seus filhos como deveriam. Se a escola treme nas bases é porque a base está vacilante, no caso, a base da sociedade, a família. Isso é assunto pra outras reflexões...
O professor também tem sua parcela de culpa ao fazer pouco caso de seus deveres, ao adotar posturas intransigentes e irresponsáveis, metodologias desinteressantes e uma pedagogia que, timidamente, começo a colocar em cheque. Ainda é cedo para julgamentos profundos. Quando passar o alumbramento inicial, creio que terei melhores condições de raciocinar sobre isso.
O conteúdo é o mesmo desde meus tempos de escola, entretanto, agora, apresentado em uma camuflagem de renovação e um toque de ditatorialismo. Camuflagem porque o governo não fez nada de novo a não ser uma salada pedagogias e metodologias que resultam numa quimera frustrante para o professor e para o aluno; ditatorial porque, com os caderninhos, o professor fica limitado, obtuso, sem horizontes e possibilidades de inovação. Esquece, o governo, que cada classe tem um ritmo de andamento e aproveitamento que só quem está à frente dela conhece. O professor fica atado às brochuras como outrora esteve atado ao livro didático. Então temos uma série de problemas, alguns pitorescos, como o caso de um colega que não tem mais tempo de lavar as próprias ciroulas devido à leitura dos livretos. Problemas graves também surgem, como o comodismo de professores que, com a "coisa pronta", limitam-se em seguir o que lá está, deixando de buscar atualizações curriculares, de estudar o conteúdo. O professor dedicado também sai prejudicado ao ver as possibilidades de inovação trancafiadas nas gavetas da vida, sem a liberdade de optar por aquilo que deseja, uma vez que o cabresto da proposta pedagógica impera nos dias de hoje.
Seria muita pretensão de minha parte querer mudar o mundo escolar de uma vez. "É um trabalho de beija-flor", disse-me uma mestre em uma das muitas conversas de orientação educacional, travadas nos corredores do colégio. Cada professor deve fazer sua parte, dar o melhor de si. Um trabalho árduo, esforçado, cuja recompensa, creio, é ver sair da escola um cidadão íntegro. Certamente que não há receita para tal, mas há modelos. Espelho-me nos velhos mestres que hoje se tornaram colegas, nos mestres da academia e em tantos outros mestres que a vida traz. São modelos de desenvolvimento do meu próprio trabalho, da geração das idiossincrasias que revelam potencialidades que tenho e desconhecia.
O professor deve se conhecer e conhecer seu aluno. O auto-conhecimento é pedra fundamental do exercício da educação. Sem ele o indivíduo não descobre onde quer chegar, não sabe como e nem o quê fazer para chegar a algum lugar. Reflexão e diálogo são elementos fundamentais nas relações humanas que permitem o conhecer-se e o conhecer a outrem para, juntos, construírem o saber e concretizar o conhecimento.

4 de março de 2009

Da página em branco à pagina nova

de Amilcar Bettega

O tema do desafio da folha em branco não poderia ser mais apropriado a um escritor que apesar de aceitar (ainda que com ressalvas) a denominação, passa a maior parte do seu tempo não escrevendo do que o contrário. Não poderia ser mais apropriado a alguém que é capaz de gastar horas, dias, semanas, meses até diante de uma folha em branco sem conseguir colocar ali uma só linha. Não poderia cair melhor, portanto, para mim que não sem me sentir um pouco ridículo, vejo-me paralisado, tomado por um sentimento de vacuidade cada vez que tenho que escrever um texto, seja uma rápida comunicação de quinze minutos para um evento literário como este, seja uma página do conto ou do romance no qual, apesar da dificuldade, insisto em continuar trabalhando.

Ao contrário de muitos escritores que são verdadeiras torrentes de palavras, que escrevem muito - e bem - e que mais tarde exercem com sabedoria a depurativa função do corte, eu sou daqueles cujo problema maior é ter alguma coisa para cortar. Assim, quase tudo o que consigo pôr no papel, ali fica. E não poucas vezes é ainda reciclado e reaproveitado em mais de um texto.

Esta escrita em conta-gotas, magra e rarefeita, eu a assumo como a mais pura evidência de minha limitação para escrever. E tal evidência me é o tempo todo jogada na cara, justamente pela oposição direta com o reino das possibilidades infinitas que a página em branco representa.

Quando tudo é permitido, não dá para fazer qualquer coisa. Numa esfera particular talvez uma frase como essa fosse a saída, ou desculpa, para explicar o efeito inibidor que a página em branco exerce sobre mim. Mas tentando generalizar um pouco eu diria que o verdadeiro desafio que a página em branco impõe ao escritor não é apenas o de preenchê-la e, por assim dizer, de vencê-la, mas o de fazê-la uma página nova.

Escrevemos contra o vazio e no vazio, mas sobretudo escrevemos para dar origem a algo que não existia antes de nós e que passa a existir precisamente através do nosso gesto.

Alguém já disse que cada frase é a invenção de um mundo. Ou pelo menos assim deveria ser: o que vai na frase não é a imagem do mundo em palavras mas o mundo que passa a existir através da palavra do escritor. Não se trata, portanto, da realidade transposta para um livro. Tampouco da realidade transfigurada. O que está em jogo é a escrita dessa realidade. É a maneira como a linguagem escrita vai tomar a realidade e comunicá-la, inagurando uma coisa nova.

Um texto deve ter sempre certo caráter fundador, ou pelo menos trazer a marca dessa vocação. Alguma coisa nele deve mostrar que se trata de uma tentativa - nem sempre bem-sucedida, o que não lhe diminui seu valor ético - de buscar algo novo, de fazer de uma outra forma.

Em maior ou menor grau creio que há sempre certa preocupação por parte dos escritores com a originalidade de suas obras. Preocupação legítima e louvável, mas que algumas vezes é traduzida por um esforço para não contar as mesmas histórias e nem sempre é estendida à forma como essas mesmas histórias se organizam - forma esta que, como sabemos, é o que dá corpo a essa coisa meio abstrata que um tanto genericamente chamamos de literatura.

Nunca se conta da mesma maneira, mesmo quando se conta a mesma história. Contar uma história é deformá-la. É dar uma nova forma. Séculos de tradição literária são a prova de uma constante renovação das formas e de um - também constante - esgarçamento dos seus limites. E esta mesma tradição aí está para que dela nos servimos na tentativa de abrir novos caminhos, de continuar a exploração desse reino das infinitas possibilidades.

Respeito e sou mesmo capaz de apreciar os livros que, como dizem as resenhas dos jornais ou às vezes os próprios autores desses livros, limitam-se a contar boas histórias. Boas histórias bem embaladas em fórmulas seguras e já testadas ao longo do tempo, algumas até com prazo de validade vencido. Acontece que por vezes o talento do escritor é maior do que sua disposição para se experimentar fora de rotas já traçadas e o produto do seu trabalho, bem, o produto é um belo e apreciável produto literário. Uma história bem contada - um desperdício de talento, na minha opinião.

O que me comove (e o que me move) na literatura é quando consigo perceber num texto toda a inquietação do seu autor na busca por algo diferente, que ele não sabe exatamente o que é, que ele até pode intuir, mas não mais do que isso. Preciso sentir que o que o leva à frente é o impulso e a alegria infantil de fazer algo pela primeira vez, com todas as hesitações, os temores e, sobretudo, a surpresa que isso acarreta. Porque é na surpresa renovada a cada página que leitor e escritor se juntam para levar adiante a aventura de criar algo novo.

Ao contrário do que se passa na escrita jornalística ou ensaística, onde o conhecimento prévio do tema ou do encadeamento do relato que o autor pretende fazer é necessário e mesmo desejável, na ficção este encadeamento só pode ser orientado pela própria linguagem.

É ela, a linguagem, a única ferramenta da ficção, o que está na origem e no fim do texto. Se não for assim é falso, ou seja, não é ficção. É a frase disposta sobre o papel, essa espécie de voz que canta no interior do texto e que nasce do simples choque entre as palavras, é isso que vai puxar a frase seguinte e que vai acabar por ditar o próprio rumo do relato, a sucessão dos eventos e mesmo a lógica da relação de causa e efeito. A sentença não é muito original mas vale a pena repeti-la: a originalidade não está no tema, mas no que se faz dele.

Avançar sem saber exatamente onde se põe o pé, sentir que o chão escapa, escrever para saber e não porque se sabe, escrever não para contar o que previamente foi elaborado mas para descobrir o que se vai contar, e sobretudo descobrir de que maneira isso pode ser contado. É essa constante incerteza - que necessariamente coloca o escritor em posição de grande fragilidade - que vai dar ao texto a sua verdadeira dimensão literária.

Um dia Kafka escreveu no seu diário: "um escritor escreve sempre numa língua estrangeira". Obviamente não era uma referência ao fato de ele, Kafka, ser um tcheco escrevendo em alemão. Na minha leitura o que ele queria dizer é que a linguagem utilizada por um escritor para criar o seu universo literário não é algo conquistado de antemão, não é uma coisa adquirida, estabelecida para o resto da vida, mas, ao contrário, trata-se de qualquer coisa de extremamente móvel, escorregadia, imprevisível, onde um abismo pode estar à espera logo ali adiante, no final da frase.

Pois quando se faz ficção é preciso sentir sempre essa espécie de desconforto que experimentamos ao usar uma língua estrangeira, quando não raro se adota caminhos enviesados para conseguir expressar o que nos vem ao espírito. Faz-se um uso particular da língua, diferente daquele que faz toda a gente no automatismo próprio das coisas bem assentadas. Escrever é um pouco isso. Um caminho torto. Um olhar de viés. A literatura é e será sempre esse olhar de viés, capaz de abordar o mundo de uma maneira muito particular, mas que só acontece de verdade quando o escritor rejeita as soluções de facilidade e se volta não apenas para o fato que narra, mas para a essência mesmo do fato de narrar.

Como se faz isso que afinal é o texto? Como se constrói o relato? Por que alguém como eu (ou você ou qualquer outro) em determinado momento se coloca diante de uma folha em branco para contar alguma coisa que não sabe exatamente o que é, que não a compreende e que, é muito provável, vai continuar sem compreendê-la mesmo após tê-la contado?

Questionar a estrutura do relato, se indagar sobre a sua forma, o que para alguns representa certo encarceramento formalista e um afastamento do mundo real é, na minha opinião, estar muito mais em sintonia com uma realidade que para ser abordada por escrito exige que nos coloquemos algumas questões essenciais sobre a natureza desta abordagem.

Só assim é que se pode, como queria Baudelaire, ir ao fundo do desconhecido para encontrar o novo. Se não for dessa maneira, o melhor é não fazer, e relegar a palavra ao silêncio branco da página.


Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3611071-EI6781,00-Da+pagina+em+branco+a+pagina+nova.html