29 de outubro de 2009

Trilhos


- Lá vai o trem...
- Pra onde?
- Não sei, mas uma coisa é certa: está nos trilhos.

19 de outubro de 2009

Coisas de Lia

de Efraïn Bacuri

Acordou com vontade de fugir com o circo. Tomou um suco de acerola e foi varrer a sarjeta. Quando estendeu a roupa branca no varal, os pardais vieram recolher as migalhas do terreiro e sujaram os lençóis com cocozinho cinza opala.
Regou os gerânios. Ouviu as notícias do rádio: mulher se enforca com lençóis. Curiosos, os gerânios a observavam. Lia pensou em despetalá-los pela tamanha ousadia que tinham em questioná-la.
Mas não se moveu.
Continuou sentada, observando os lençóis manchados que dançavam ao sabor do vento. No âmago, aquela vontade de fugir com o circo...

12 de outubro de 2009

Laura

Los ojos que jamás miré
¿Como són, Laura?
¿Como es el cariño,
la palabra dulce de vieja sabia?
Quisiera los tapas y las copas de tus manos,
frutos de raíz andina,
el poncho trazado por preciosas manos,
flauta de pã que toca la vida.
Pero la tengo, Laura querida,
aunque no la veo,
en muy amada figura:
parte del todo que me hizo vida.

8 de outubro de 2009

O trailler de um filme velho: na parede branca, era projetada a imagem do roseiral seco sobre o qual ia, desconsolado, o poeta com sua boina preta. Não havia foco, não havia som. Eu via a vida, em filme, passar em rotações de projetor e nada me era mais doce e triste e belo do que as rosas aos pés do poeta. A dor que consumia o ambiente, o silêncio da sala, tudo me abraçava e me dava a sensação de estar vivo. Doce ilusão da arte. Na película, eu era a rosa seca esmagada por sapatos cor de carmin.
Caiu no céu. O impacto foi tão grande que choveram estrelas.

6 de outubro de 2009

Agonia

de Efraïn Bacuri

Sente-se estranha. Arrepios insólitos invadem-lhe a alma e a incomodam mais do que a visão da mosca mosqueando a face pálida do defunto. Nem chega à décima terceira Ave-Maria e vê Cristo se contorcer na cruz. Tamanha é a dor do Galileu ao torcer os braços e dilacerar as mãos nas estacas que as fixam na madeira, que ela sente, nas próprias mãos, a agonia do Redentor.
Vai morrer. É a primeira idéia que vem à sua mente perturbada pela dor física. Vê as paredes se afastarem e o lamento das carpideiras soar longe de sua consciência. A cadeira gira e num descuido o rosário vai ao chão. Olhos de anjos lhe espreitam com um sorriso malicioso. Cristo, caído, agoniza. O ventre da mulher acompanha cada gemido. Suas entranhas são cordas da marionete sacra que se contorce sob o caixão suspenso por pedestais.
Uma carola nota a agonia e, num gesto de socorro, leva a mulher para fora do recinto. Trêmula e curvada, caminha com dificuldade para o arejado da sala de velório. Ao sentar-se, sente o ápice da dor tirar-lhe o controle do corpo. Mira os olhos da companheira com o espanto de uma criança que vai ao circo com medo de palhaço. Peida um peido estrondoso que retumba pela sala. Cristo volta à cruz, as paredes quedam-se estáticas e a mosca que acariciava o defundo vai agora a outros ares.

5 de outubro de 2009

A vida sempre iludindo e a gente vivendo sempre na real ilusão...

4 de outubro de 2009

para Mercedes Sosa

Vuela, Negra!
Canta tu canto en nubes de amistad,
y calma mi llanto por verte a volar.
Vuela, Negra!
El cielo ahora es tuyo
cómo tuyos fueran los sitios de nuestra identidad...
Canta, Negra!
Retumba tu voz en mi alma...
Acuerdo una risa en la cara
a oír la Negra a cantar.