24 de setembro de 2009

Rasgo nuvens e olhares. Vazo montanhas e silencio os vulcões. Corro corro corro... Atravesso florestas, venço a sede e a fome, tiro forças do meu desejo, mato se precisar. Corro... Corro e não me canso. Vou por estradas desconhecidas, crio atalhos, navego em mares tempestuosos. Dilato o tempo em dimensões extra-físicas, metafísicas: urge em mim a vontade de transcender.
Quando chego, vivo sob teu olhar.

23 de setembro de 2009

"O inferno são os outros" - Sartre

lá estou: vazio, longe dos olhos de mim
se não me tenho, se não estou cheio, ou se me tenho vazio em mim, que estou então?
nao sei se você está vazio
ou se está cheio de si mesmo: uma forma de estar vazio
também nao sei se você não se tem.
não sou você.
é sempre o outro.
o Inferno é eu mesmo.
Eu quero a língua pura do pensamento, a consciência em fluxo da liberdade do sentir com as idéias. Mas eis que a língua tolhe o eu do mundo e o porvir se esvai como bruma em luz que cega. Eis que o rio rompe o discurso e o mundo fica preso, suspenso na representação obsoleta. O nada. O sempre nada que galga os degraus do ser rumo: ao nada! E o pensamento que não sente mais é linguagem híbrida em gênero desnexo. Disléxico. Vã filosofia de letrinhas miúdas lidas por velhinho míope, Deus. E eis o sentido do que eu não quero em língua alguma senão silêncio.
Enfia uma faca no meu bucho, rasga minhas entranhas, bebe o meu sangue e delicie-se com minhas fezes ainda quentes, inconsistentes no meu intestino delgado! Vomita na minha face e arranca os meus cabelos a unha. Ferve num mar de lama os olhos negros da juventude. Dilacera tua alma na liberdade do oceano. Do pó à lama. Da lama ao ralo. O que se pensa e se tange na lira míope são úlceras que pulsam e jorram pus, neoplasma desejando a morte. Deita numa cama de pregos e açoita o teu carrasco, humilha teu prisioneiro de guerra. O que eu mato é a morte. O que eu vivo é a morte. O que me tem é a morte.Morte. Mate. Morra. Mata-me em vida escusa, obscura. Desce ao inferno e flerte com o diabo, o diabo da morte... Morte. Da loucura pura que candeia a mente. Rasga o coração e se embriague no prazer da morte. Estanque vida de um destino vil.
Dê um nó em minhas tripas.

16 de setembro de 2009

Matabarata

(para Maura)

Matabarata, pia a tia
ria a barata baratando na conga.
Matabarata
rata pulga!
Pata do pato na chinela vazia.
Matabarata, tia Pía!

14 de setembro de 2009

In excelsis

(para Kelly)


O Outro, sentido de mim,
puro e absoluto:
significado pleno no silêncio do olhar.
Razões d'alma,
apelos do coração.
Línguas silênciosas em carícias cálidas.
Amor mira-olho
miríade inexorável
amiúde.
In excelsis.

11 de setembro de 2009

Veio a vida trazer a poesia na prosa boa, num dia de olhares sobre olhares. O riso certo, confiante, delicado, encantou a noite morta. Confluência de linguagens e textos permearam o fazer deste fazer: razões, emoções, o intelecto e o sentimento a serviço da sublimação. A arte poética embalada pelo estouro de pipocas: tema de uma crônica embriagada de poesia. E no fazer e não fazer, as Horas passam na tela fria. O calor: na beira do fogão, a estourar pipocas.

10 de setembro de 2009

A criança tola arrastava o carrinho ladeira acima, distraída com papagaios que volitavam no céu, sujeitos a serem cortados pelo cerol. O negrinho saiu de trás do barraco, sacou o canivete e cortou o cordão do carrinho da criança. Foi no tempo de não sentir o peso do brinquedo e se voltar para constatar o ocorrorido, que o berreiro se abriu, as pernas sujas de pés descalços bambearam, e os olhos razos d'água contemplaram o coletivo esmagar o carrinho no fim da ladeira. O negrinho degustava um pirulito vermelho e via tudo com olhos cândidos. A criança quis lhe revidar, mas intimidou-se ao ver o canivete friamente empunhado pela mão do pixote. Este, como se não bastasse ter nascido, fora abandonado. Pior sorte teria se sofresse a rejeição ou o abuso de um padrasto bêbado. A vida lhe trouxera as virtudes de um mundo amargo, duro, e ao mesmo tempo deleitoso.
Enquanto a criança corria e escorregava no esgoto que descia a céu aberto rumo aos pés do morro, o negrinho ria e gozava em seu prazer inocente. Era o arcanjo de um mundo desprezível, filho de um criador que chupa pirulitos vermelhos, enquanto seus bastardos brincam de viver.