28 de agosto de 2009

Os deuses estavam mortos. Glória e injustiça valsavam sobre os corpos rijos e agonizantes. Uma mosca verde explorava uma narina com a curiosidade lépida de uma criança. Penetrava pelo sangue ainda quente do soldado, regozijava-se no fluído que escorria pela face inerte, marcada com o pavor no olhar, cravado ali, na agonia da morte. Uma legião de urubus plainava em círculos sobre a enseada. Olhavam atentos, sentiam o perfume quente do sangue fresco e lhes invadia a alma o desejo louco de devorar aqueles despojos sobre os quais, em alguns raros, bailava ainda um pouco de vida. Fraca vida que se esvaia por chagas de pólvora e sulcos abertos sobre a pele. O moribundo que contemplava sem saber a coreografia dos urubus, lutava em vão por abraçar o ar. Não tinha braços. O ar era um coelho assustado que lhe fugia à caçada. Seu grito mudo era música fúnebre, marcha militar ecoando em precipício de ferro e carne. Quando sentiu não haver mais dor, quando sentiu que expiraria e soube que a última coisa que emitiria seria o arroto asco dos defuntos quando o corpo fosse removido, viu se aproximar a escura nuvem que lhe pousou sobre a testa. Olhos negros sorriram para ele. Sentiu apenas o bico lhe perfurar os olhos e o sangue brotar em lágrimas a embebedar o insaciável urubu.

24 de agosto de 2009

Abstração

o que já não sou,
mas, sem dizer
que fui, sou agora
o que era.
Digo, pois, que era,
quando não era.
Quando for
O mundo orbita em entrelinhas
e a vida pulsa em sangue larva e tinta
suor derramado no quadrilátero alvo das possibilidades.
O universo torna-se
mutante critatura sob o espectro do criador.
Os olhos das palavras não são de deus.
É o processo pagão,
não o sentido puro.
Fixação
prostração
o Diabo da Poesia.

18 de agosto de 2009

O vento entra pela janela e bagunça os apontamentos soltos sobre a escrivaninha. Você entra pela porta e bagunça meus pensamentos. Desliza graciosamente e me envolve em seus braços, impedindo-me de escrever uma linha sequer. Eu perseguia uma frase quando você chegou. Era um anacoluto, metáfora. Um paradoxo. Me beija com graça e sorri como o Diabo provocando Cristo. Toma de minha mão a pena e risca meu dorso nu, contado uma historinha infantil que, quando chega ao clímax, envereda por um conto lascivo e obsceno. Então amamos em meio a garatujas soltas pela sala, notas revolvidas pelo vento. Amamos e não escrevo.

12 de agosto de 2009

Qual é o tempo em que crio o universo real e abstrato? Trago aqui a densidade do passado e a beleza do futuro para fazer deste fazer um feito deleitoso. Mas funciona? Quem sabe. A técnica na qual me perco é o limbo da condição deste presente que se eterniza apenas no agora para não ser. Inútil tentar? Não, evidentemente. O fazer requer de toda a realidade e abstração atemporal, transmutável em suas formas e sentidos, para que se solidifique em termos tão abstratamente concretos, que chegue ao ápice da existência. Entretanto, não há leveza suficiente capaz de fazê-lo, tampouco oximoros indeléveis para constituir o que uma alma não é, ou que não pode ser. Ou talvez possa. Se puder, realmente, nos níveis abstratos e nos reconditos soturnos da consciência - mesmo nos campos mais aprazíveis desta - quem garante que o tempo é o que se espera e o que se propôs? Quando era, já não seria. Quando for, já não vai ser. Em meio às normas que ordenam o universo e que me imputam a empregar um tempo ao feito, crio meu próprio tempo atemporal, surreal, tangível em uma mente que é a própria criatura, fruto de si. Quando o feito estiver feito, e for refeito quando já nao for mais, o tempo ficará suspenso e eternizado num modo simplesmente atemporal.

11 de agosto de 2009

Cançãozinha desmedida

Voa passarinho!
Leva esta canção ao meu benzinho...
Canção torta e desmedida
que carrega em si a vida
e o encanto do olhar
Bate asas passarinho!
Quisera eu poder voar
cantaria nos braços dela
a cançãozinha singela
pro seu dia alegrar!

7 de agosto de 2009

Era o rio
um remo
e um rato.
O rato em cima do remo
a rolar pelo rio.

3 de agosto de 2009

O que é, menino?

de Efraïn Bacuri

O que é esse brilho no teu olhar, menino? Não te conto, meu bom Efraïn. Por quê? Porque, como diria o Carlos, a poesia desse momento inunda a minha vida inteira. E eu ri um riso aberto, e contemplei seus olhos brilhantes, vi sua alma com uma felicidade dessas que não há nos livros. Em silêncio, caminhamos lado a lado, ambos com risos bailando nos lábios. O que é, Efraïn?! É a poesia do momento que inunda a nossa vida inteira...