23 de julho de 2009

Condenados

O veneno e o remédio. O ungüento balsâmico. Deus, o Demônio e a fé deposta dos olhos de menino. O silêncio, arte do verbo. Vida e morte na alma ferida, alma risonha. A reza, os tambores, a água benta, as santas putas da beira da estrada. O álcool. A caridade. Os olhos quentes do fogo morto: cinzas sopradas ao vento. O sangue que brota da rocha frágil. O eu e o idem, o desejo e a força, a forma do novo, o vôo do pássaro sem asas. Você e o outro. A salvação, eu e você. O nó, o laço em nós: o novelo. E ao amor condenados.

22 de julho de 2009

Susto

A vida se transmutara. As lágrimas da família em volta do despojo salgavam-lhe a face pálida com uma saudade sem motivos. Tão cruel. A inércia do coração era agora a única presença da qual dispunham os entes. É indiferente. Era assim quando pulsava. Na encomenda da alma, aos costumes provincianos, o susto: aquilo vivia.

21 de julho de 2009

Nu

Nu, toco com a ponta dos dedos o espelho embaçado pelo vapor. Começo pelo reflexo do sexo e, como se tocasse meu próprio corpo, subo pelo ventre, braços, ombros e não desembaço a cabeça. Toco o reflexo dos olhos, estes olhos tristes que me vêem dizem coisas absurdas, líricas, docemente amargas sobre o outro que sou eu. Enquanto desembaço o restante da face, gotícluas deslizam suave e lentamente sobre meu corpo numa carícia infantil e doce. Vejo-me em alma. Translúcida alma nua em frente ao espelho. O frio se mescla à ternura do ambiente, mas não me incomoda. Eu evaporo e escorro.

14 de julho de 2009

Numa noite cálida e silenciosa, nossos olhos se encontraram e as almas se uniram numa existência única por toda eternidade... Os corpos se deleitaram sob a luz da lua e exploraram um novo mar. A vida surgiu em nós sobre cinzas de fogo extinto. Fênix? Além da mitologia. Além do ser e do estar, tanscendente à própria transcendência...
Mas, como a vida é Vida, e precisa ser vivida em intensidade, num solavanco caímos em ilhas, bússolas desnorteadas... Que fizemos senão errar? Vivemos. Ao modo único e belo de cada poética dissonante que nos tornamos. Vivemos entre porcos e velhas aves de rapina, andamos por caminhos de flor e pedra, e, pelas vicissitudes, firmamo-nos sujeitos implacáveis.
Ontem, o Noroeste tão falado por um velho lobo do mar trouxe o bafejo do perfume doce de outrora. Fui contra o vento para encontrar a fonte. Cheguei ao ponto de não mais senti-lo. Meus olhos buscaram os pés empoeirados e os ombros se encolheram num gesto espontâneo de desilusão. Tanto tempo...
Eis que de chofre você aparece e me deita ao chão, o perfume me invade e, quando os olhos se encontram, a vida renasce. Não há mito, crença ou julgo. Tornamo-nos Vida enfim vivida. Do inesperado encontro, vem o riso, a candura das palavras, o afago que acalenta...
O circulo se fecha e a vida completamente se refaz. Agora é um tempo de ninguém... Um tempo de nós.

9 de julho de 2009

Quando abri a porta da sala, a solidão dos retratos na parede se juntou à minha, tão imediato quanto os primeiros acordes de uma rapsódia. Os olhares todos miravam a mim e eu via minhas raízes entranhadas naquelas figuras carcomidas pelo tempo, cobertas de poeira, desprovidas da vida que um dia habitou o ser que ora representam.

Os antepassados todos se foram para sob o mármore escuro que recobre o mausoléu familiar. Agora são retratos sozinhos, cobertos do mesmo pó que eu trago em mim. Tenho, também, a solidão árida dessas paredes cobertas de retratos ressequidos e desbotados.

Mas quem somos nós, afinal? Que estranho é este que me sinto? Que moldura me espera para compor a genealogia do clã? Fiz de mim a única família que sou. Fiz de mármore o coração, mas não guardo nele os despojos inúteis dos que um dia estiveram ao meu redor. Minha moldura, de fumaça, poeira e solidão, não tem espaço na parede da sala velha. Também não há parede para o seu retrato.

Hei de ser sempre a memória na gaveta, aquela que está junto à sua representação esquecida, amarelada, insignificante. A tua representação imagística que eu mesmo coloquei ali, na intenção de falsamente me surpreender, quando na procura de um poema velho. Ali também estou: só, tanto quanto você é.

Quando fechei a porta, vieram todas as molduras ao chão. Eu estava virado dentro da gaveta e os seus olhos colados aos meus. Retratos esquecidos, empoeirados, envolvidos pela mesma solidão.


(uma outra versão - ainda não definitiva)

8 de julho de 2009

Quando abri a porta da sala, a solidão dos retratos na parede se juntou à minha tão imediato quanto os primeiros acordes de uma rapsódia. Os olhares todos miravam a mim e eu via minhas raízes entranhadas naquelas figuras carcomidas pelo tempo, cobertas de poeira, desprovidas da vida e morte que um dia habitaram o ser que ora representam.
Os antepassados todos se foram para o mármore escuro que rocobre o mausoleu familiar. Agora são retratos sozinhos, cobertos de pó. Eu mesmo tenho em mim o pó que se tornaram. Tenho em mim a solidão árida dessas paredes cobertas de retratos empoeirados.
Mas quem sou eu, afinal? Que moldura me espera a compor a genealogia do clã? Eu fiz de mim a única família que sou. Fiz de mármore o coração, mas nao guardo nele os despojos inúteis dos que um dia estiveram ao redor de mim. Minha moldura, de fumaça, poeira e solidão não tem espaço na parede da sala velha.
Hei de ser sempre o retrato da gaveta, aquele que está junto ao seu, esquecido, amarelado, insignificante. Ali serei eu, só, tanto quanto você é.
Ao fechar a porta pelas minhas costas, vieram todas as molduras ao chão. Eu estava virado dentro da gaveta e os seus olhos colados aos meus. Sós. Retratos esquecidos.

(não definitivo)

6 de julho de 2009



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